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O eu poético

José Valdez é médico, mestre e doutor pela USP, professor universitário, Magister ad Honorem da Universidade de Bolonha, e Professor Visitante das Universidades de Bonn, Munique, Colônia e Berlim (Alemanha). Professor Convidado da Universidade de Paris V (Sorbonne)

Na construção dos textos, sejam contos ou romances, normalmente estabelece-se uma diferença entre o autor que escreve o texto e o narrador que conta a história. O autor cede sua palavra ao narrador, assim como vemos diariamente nas novelas, onde o autor deixa de ser ele mesmo para se tornar personagem.

Na poesia, em especial, o autor não fala diretamente, mas cria uma voz para enunciar o poema, conhecida como “Eu lírico” ou “Eu poético”. Essa voz dá o tom ao texto e expressa os sentimentos mais profundos sobre algum assunto, compartilhando-os com os leitores através da poesia. Um exemplo notável disso é Fernando Pessoa, considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa e da Literatura Mundial.

Fernando Pessoa foi além de simples pseudônimos, criando diversos poetas, personalidades poéticas conhecidas como heterônimos. Cada heterônimo tinha sua própria visão especial de mundo e estilo literário. Três dos mais famosos são Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

Alberto Caeiro é profundamente identificado com a natureza. Seu “Eu poético” revela-se em textos de linguagem simples, onde explora o mundo das sensações e do prazer, como podemos perceber em trechos de “O Guardador de Rebanhos”.

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos,
E os meus pensamentos são todos sensações; Pensar uma flor e vê-la
e cheirá-la
”.


Por outro lado, ÁLVARO DE CAMPOS, outro heterônimo do Grande Poeta, é intensamente ligado ao mundo urbano e industrial, como
pode mos apreciar em “O de Triunfal”:


Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Poder ir na vida triunfante
Como um automóvel último modelo!


E, o que dizer desse fantástico heterônimo de Pessoa, o RICARDO REIS? Seu “Eu Poético” em linguagem formal, se exprime na reflexão racional sobre o existir, sente as agruras do tempo, tem consciência ampla da inevitabilidade da morte. Percebemos que escreve totalmente diferente do bucólico CAIEIRO, do angustiado ÁLVARO DE CAMPOS, como podemos sentir nesses versos carregados de Filosofia:

Nem é porque eu sinta
uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta,
Não sabe o que quer.
É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!
”.


Por fim, relembro o nosso inesquecível escritor gaúcho Mário
Quintana ( 1906-1994).,quando em “Canção do Amor Imprevisto”, nos
mostra o seu inigualável “Eu lírico” ,segundo alguns autores, o “ Eu Lírico masculino”:


Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou um homem egoísta e mau,
E a minha pessoa é um vício triste
Desesperado e solitário,
Que eu faço tudo por abafar
.”

    Vanguarda literária

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