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Jornal Tribuna do Norte

MINHA HOLANDESINHA

Dedicado à Karen Wolffman, a estrelinha mais linda que mora no céu

Pela primeira vez caminhei até o fim do corredor. Fui devagarinho, para não me cansar. A enfermeira azul (eu a chamava assim devido à cor dos olhos dela) perguntou se eu precisava de ajuda.

Eu sorri, agradeci e disse que conseguiria caminhar sozinho. Ela não insistiu porque percebeu que eu estava bem, mas me acompanhou com os olhos.

No último quarto à direita, encontrei a menina pálida de cabelos cor de ouro e olhos claros. Estava sentada na cama, de frente para a janela.

Bati com os nós dos dedos na porta, mas a menina nem se mexeu. Tornei a bater e nada. Então, entrei e me coloquei diante dela.

Ela estava com os olhos fechados e as mãos unidas junto ao peito. Ao abrir os olhos, ela me olhou com espanto e disse que estava em oração.

Conversamos um pouco. Contei que eu era um dos vizinhos dela, e que morava no começo do corredor. Contei, também, que estava com leucemia, e ela me disse que estava lutando contra a mesma inimiga.

Fiquei sabendo que os pais dela procuraram por medula até fora do país. Mas, infelizmente, não conseguiram nenhuma medula compatível. Em razão de tantas frustrações, a mãe dela resolveu engravidar novamente, na esperança de que a criança pudesse ser portadora de medula compatível. A mãe dela está no quarto mês de gravidez.

Ao perceber fios de emoção escorrendo em meus olhos, ela mudou de assunto e me convidou para visitá-la quando deixássemos o hospital; mas só se eu não tivesse medo de bichos. No condomínio onde morava, havia capivaras, lebres, corujas e macaquinhos. Eu disse a ela que só tinha medo do bicho-papão. Ela riu.

Depois falou dos apelidos que lhe davam na escola: Olívia Palito, taco de bilhar e poste. Não sei se ela inventou esses nomes para me fazer rir. Eu só ri porque ela riu, até porque nenhum desses apelidos era honesto.

Ela me contou que gostava de música clássica, especialmente de Beethoven, Strauss, Vivaldi e outros de que não me lembro. Disse que tocava piano em casa e prometeu que, quando eu fosse visitá-la, tocaria para mim.

Contou que os pais eram holandeses e que há muito tempo estavam no Brasil. O pai trabalha num banco, onde ocupa um cargo no alto escalão, e a mãe é educadora.

Duvidei da origem estrangeira e a desafiei a falar algo em holandês. Ela disse: “God is liefde”, que significa Deus é amor.

Quando consegui pronunciar corretamente as palavras, uma luz suave se esparramou pelo quarto e nos envolveu. Era a luz da paz saindo dos olhos da holandesinha.

Proseando - Maurício Cavalheiro

Maurício Cavalheiro
Maurício Cavalheiro
Membro da Academia Pindamonhangabense de Letras, da UBT União Brasileira de Trovadores e da ABRASSO Academia Brasileira de Sonetistas. Finalista do Prêmio Barco a Vapor – 2024 e do 1º Prêmio Bem-te-vi de Literatura para a Infância – 2025. Possui prêmios literários no Brasil e no exterior, e livros publicados nos gêneros poesia, infantil, romance, teatro, contos e cordel.
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