
O Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) divulgou há poucos dias a versão digitalizada das redações produzidas no Enem 2023 (os chamados “espelhos”) e a vista pedagógica, ou seja, a pontuação obtida em cada uma das habilidades avaliadas pelos corretores acompanhada de brevíssimos comentários acerca do desempenho do candidato. Essa avaliação do texto é preciosa para o diagnóstico de falhas e lacunas que precisam ser eliminadas na preparação daqueles que voltarão a fazer o Enem neste ano.
Sabemos que a produção de um texto dissertativo-argumentativo exige o domínio de três saberes essenciais: é preciso saber O QUE DIZER (a análise crítica sobre o tema proposto), COMO ORGANIZAR O DIZER (a estrutura textual e os elementos coesivos) e DIZER (o emprego da norma padrão escrita da língua portuguesa). Ora, a pontuação atribuída a cada competência nos ajuda a identificar o saber que precisa ser aprimorado.
Se houve perda de pontos na competência 1 (domínio gramatical), há um claro sinal de que o DIZER requer cuidados. Problemas com as competências 2 e 3 indicam a necessidade de atenção com O QUE DIZER e também a COMO ORGANIZAR O DIZER. O desconto de pontos na competência 4 também evidencia dificuldades em COMO ORGANIZAR O DIZER e pode apontar deficiência na escolha vocabular (competência 1). Por fim, pontuação baixa na competência 5 pode revelar problemas com os três saberes, já que a exigência é a de que a proposta de intervenção esteja correta e coerentemente articulada ao que foi discutido no texto.
Essa associação entre as deficiências reveladas pela vista pedagógica e os saberes exigidos pode não ser completamente elucidativa para o aluno que busca respostas rápidas e soluções práticas – o que é genuíno, justo e perfeitamente compreensível. Mas tal identificação nos leva à etapa seguinte: como ampliar o domínio desses saberes indispensáveis ao desenvolvimento do discurso dissertativo-argumentativo – em outras palavras, como melhorar habilidades de escrita.
Para encontrar O QUE DIZER, precisamos fomentar nosso olhar crítico. Nesse sentido, além dos questionamentos inevitáveis (perguntas esclarecedoras) que fazemos desde que nos conhecemos por gente (Por quê? Desde quando? Como assim? Para quê? O que isso gera? De quem é a culpa?…), devemos executar outras ações: ler textos de natureza argumentativa (artigos de opinião, editoriais, redações exemplares); acompanhar reportagens e discussões da atualidade (aqui entram os podcasts também); participar de debates acerca das pautas que ocupam o noticiário e dos temas que permeiam a humanidade desde sempre; conhecer a opinião de pessoas que analisam e questionam o que vem acontecendo no Brasil e no mundo (as chamadas vozes autorizadas).
Se a dificuldade estiver na ORGANIZAÇÃO DO DIZER, é necessário rever a estrutura da dissertação, identificando todos os movimentos discursivos que compõem cada um dos parágrafos desse gênero textual. É claro que a leitura de “redações nota máxima” é fundamental nesse processo. Ademais, todo texto tem de ser planejado, roteirizado ANTES DA ESCRITA – isso ajuda o enunciador a entender a estruturação do discurso e evita percalços como repetição de ideias e falta de clareza e coerência.
Por fim, para dominar o DIZER, muita leitura e muita prática de escrita (incluindo aqui a valiosíssima reescrita). Sim, isso envolve também a necessidade de estudar a gramática normativa, rever conceitos como acentuação gráfica e o uso correto dos sinais de pontuação e investir na aquisição de um vocabulário preciso e variado (consultando, sem preguiça, glossários e dicionários).
Enfim, escrever bem – na vida e no Enem – significa aprender com nossos erros e acertos. E tudo começa com o diagnóstico correto, o qual indicará o percurso necessário para se chegar ao resultado almejado: o sucesso!