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E se a gente falasse disso agora?

Duas mulheres foram vítimas de feminicídio em menos de um mês na minha cidade. Uma cidade que a gente costuma chamar de tranquila, onde todo mundo conhece alguém que conhece alguém. Rotina previsível, aquela sensação de que certas coisas acontecem longe daqui. Só que não.

A violência contra a mulher não mora apenas nas grandes cidades, nas estatísticas nacionais ou nas páginas policiais. Ela pode estar na nossa rua, na casa ao lado, na história de uma amiga, de uma colega de trabalho, de uma vizinha.

E talvez por isso mesmo seja tão importante falar sobre feminismo.

Calma! Não precisa fechar a coluna agora. Não vou transformar o Código Diva em um palanque.

Falar sobre feminismo não significa militar o tempo inteiro. Não é obrigatório levantar cartaz, entrar numa discussão na internet ou saber responder, de bate-pronto, todas as questões sobre gênero (embora tudo isso também seja necessário, sim!).

Mas é importante entender algumas coisas.

Ter letramento é fundamental para saber reconhecer uma relação abusiva, perceber quando o ciúme virou controle, entender violência psicológica e patrimonial, assédio, importunação. É conversar sobre consentimento, limites e sobre sinais que muitas vezes aparecem muito antes da violência física.

E isso pode acontecer de um jeito absolutamente cotidiano.

Numa mesa de café com as amigas, quando alguém conta que o namorado fiscaliza o celular dela e a gente percebe que aquilo não é “ciúme porque ama”. No carro, voltando do supermercado, quando aparece uma fofoca sobre uma amiguinha da escola da filha. No sofá de casa, com nossas filhas, enquanto assistimos ao noticiário. Numa conversa com o marido, quando uma piada ou determinado comportamento deixa de parecer normal simplesmente porque sempre foi assim.

Pode ser até numa coluna aparentemente despretensiosa que fala de moda e estilo para mulheres: “Você percebeu isso?”

Perceber é importante. Nomear também. Porque aquilo que a gente não consegue reconhecer fica muito mais difícil de enfrentar.

E não, isso não é “mimimi”. É coisa séria.

Mas coisa séria não precisa ser pesada o tempo inteiro. A conversa também pode ser leve. Dá para aprender juntas, perguntar quando não sabemos, mudar de ideia e ensinar nossas filhas a identificar situações que nós mesmas, muitas vezes, aprendemos a chamar de “normal”.

E tem uma parte dessa conversa que precisa sair da roda das mulheres: precisamos ensinar nossos filhos também. E conversar com nossos maridos, namorados, companheiros. Com nossos pais. Com os homens que fazem parte da nossa vida.

Não é desejável criar mulheres desconfiadas de todos os homens; mas sim, formar filhas e filhos capazes de reconhecer limites, respeitar escolhas e entender que controle não é amor, ciúme não é prova de afeto e violência nunca é demonstração de amor.

Acho, sinceramente, que seja justamente aí que o feminismo deixe de ser uma palavra que assusta algumas pessoas (sim, já me assustou) e passe a ser aquilo que também deveria ser: conhecimento para a vida.

Quanto mais esse conhecimento fizer parte das nossas conversas, menos ele dependerá de uma tragédia para aparecer. Porque hoje ele chega pelas páginas policiais.

A ideia é que consiga chegar muito antes delas. Não duas vezes no mesmo mês. Não só durante o Agosto Lilás. Mas também num dia 2 de setembro. Por que não? Todos os dias.

Talvez seja assim, de maneira natural, menos barulhenta e muito mais profunda, que a gente comece a mudar algumas coisas.

Código Diva

Aiandra Mariano
Aiandra Mariano
Jornalista por vocação, apaixonada por comunicação, moda e tudo que inspira propósito, beleza e transformação. Versátil, criativa e sempre em busca de novas histórias para contar, aqui compartilha reflexões sobre estilo, comportamento, autoestima, e identidade feminina. @aiandramariano
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