Ele está de volta. O período eleitoral reacendeu, com toda força, o viralizado modelo Coliseu, em que um defensor de uma ideia se coloca numa arena com pessoas que defendem ideias opostas. Se antes os atores centrais eram empresários, alguns políticos ou até ativistas, atualmente, no centro estão os candidatos às eleições.
E o que circula em peso para nós, nas redes sociais, são os cortes: trechos muito curtos, cheios de efeitos, comentários debochados, frases pinçadas, tudo bem pensado para prender nossa valiosa e fragmentada atenção.
Mas será que esse modelo Coliseu é realmente um debate? O dicionário é bem específico. Debate é a discussão em que se apresentam argumentos a favor ou contra alguma coisa, visando uma conclusão. Pressupõe construção de argumentos, escuta ativa e, ao final, a possibilidade de chegar a um lugar novo.
Já o que vemos nesse modelo é o confronto, ou seja, a disputa entre adversários, num embate feroz em que, basicamente, ninguém ali está disposto a escutar ou entender. O único propósito é vencer e gerar cortes que confirmem a própria versão de vitória.
Isso quando não acontece a afronta, que é a fala ofensiva, agressiva, ultrajante, ou seja, a discordância que vira humilhação.
Nesse formato não há o outro lado. Só há o próprio “vencer” em quinze segundos. A edição tira a complexidade do contexto e nos faz mergulhar na tela mais convencidos do que quando entramos, mais presos na própria bolha, mais fechados para o outro.
Para que um debate de verdade aconteça, algumas coisas precisam estar presentes, dos dois lados.
Do ponto de vista argumentativo, é preciso estrutura: observar a situação sem julgar, nomear com clareza o impacto que ela causa e, só depois, propor uma ideia que resista a ser questionada.
Do ponto de vista emocional, é preciso regulação: capacidade de discordar sem precisar destruir, de ouvir uma crítica dura sem partir para o ataque. Essa é a diferença entre reagir e responder.
É basicamente o que a Comunicação Não-Violenta ensina, e o que busco no meu próprio método com os alunos da mentoria através do roteiro SIP: observar a situação sem julgar, nomear o impacto que ela causa, só então apresentar uma proposta.
A questão é que nada disso cabe em poucos segundos de vídeo.
Da próxima vez que você assistir a um desses cortes, antes de compartilhar, pergunte-se: isso é um debate, um confronto ou uma afronta? A resposta pode mudar completamente sua perspectiva sobre a situação.









