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Azeitonas? Nunca mais

Minha esposa enfatizou riscos de estripulias na tentativa de convencer a mãe em não fazê-las. Entretanto, sabendo que a velha era teimosa e indomesticável, me cobriu de beijos e implorou:
– Benzinho, vai lá você comprar o remédio pra mamãe, vai.
– Agora? Impossível! Só se for depois do jogo.
– Depois não dá. Ela precisa tomar o remédio dentro de meia-hora.
Reabasteci meu copo com cerveja e enfiei azeitonas na boca.
– O segundo tempo começou agora. Desculpe.
Cuspindo marimbondos, prometeu-me dias intermináveis de seca, caso eu não cuidasse da sogrinha. Assim que saiu, a velha alinhou a escada ao lado do pinheiro. Com dificuldade, ascendeu, equilibrou os quase cem quilos dispostos no corpo de metro e meio, e dedicou-se ao adereçamento da árvore de natal. Ofereci ajuda, mas fui repelido, como sempre: “Você não presta pra nada!”
Assim sendo, acomodei-me na poltrona para assistir ao jogo. Meu time precisava de vitória simples para ser campeão. 0 x 0 era o placar. No último lance, a bola venenosa cruzada na área resultou em…
– Gooooooooool!!!
Gritei com tanta euforia que a velha se assustou, desequilibrou-se, caiu, e bateu com a cabeça na mesinha de mármore. Imagine a queda de um elefante. O chão tremeu. Fui prestar os primeiros socorros. Ao me aproximar da massa adiposa, minha esposa chegou.
– O que aconteceu? Você matou mamãe?
– Ela… caiu.
– Você não presta pra nada! O que está esperando? Chame a ambulância! Chame os bombeiros! Chame o doutor, pelo amor de Deus!
Selecionei o número da agenda.
– Alô! Dr. Neira? Minha sogra caiu da escada e bateu a cabeça.
– Senhor…
– Venha depressa, por favor!
– Mas, senhor…
– Dinheiro não é problema. Pode cobrar o quanto quiser. Mas venha rápido. Venha, no máximo, em cinco minutos. Não se arrependerá.
– Mamãe! Mamãe! Fale comigo, pelo amor de Deus!
– Anote o endereço…
Desliguei o telefone e continuei comendo azeitonas.
– Monstro! Insensível! Quero o divórcio!
Numa dessas vociferações, ela me esmurrou às costas; as azeitonas se entalaram na garganta, sufocando-me. Vi minha sogra recuperar os sentidos, enquanto eu perdia os meus.
A campainha tocou no instante em que a velha se levantou. Ao tempo em que minha esposa abria a porta, a ressuscitada se aproximou e me comprimiu violentamente, fazendo com que as azeitonas fossem expelidas.
– Dr. Neira? Graças a Deus o senhor chegou. Minha mãe… Meu marido… o senhor precisa avaliá-los.
– Dona, eu não sou doutor. Sou agente funerário. Posso ir embora?
Ela ficou pasmada. Em seguida, olhando-me enfurecida, respondeu:
– Fique, moço. Sua vinda não foi em vão.

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