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“AMIGOS” INSEPARÁVEIS

Zé Mané se levantou de madrugada para tomar um copo d’água. Ao acender a luz, viu o rato ao lado do filtro de barro. Antes da fuga, o roedor tentou mordiscar a fatia de pão deixada sobre a pia. O homem ainda conseguiu ver o animalzinho escapar por debaixo da porta. Imediatamente, o homem pegou panos de chão e vedou a fresta.

Depois de admirar a sua obra de engenharia, Zé Mané foi se deitar. Mas, deixou o abajur aceso. Entre um cochilo e outro, ele ouviu chiados: chip, chip, quiiii, quiiii. Seu primeiro ato foi cobrir o corpo todo com o edredom. Pensou que, se não fosse visto, o rato iria embora. Zé Mané se sentiu seguro, mas não dormiu.

No dia seguinte comprou uma ratoeira e, quando a noite chegou, armou-a com um pedaço de queijo. Foi se deitar. Não demorou a ouvir o barulho da ratoeira desarmando. Plict! Finalmente, poderia dormir sossegado.

Assim que o sol nasceu, Zé Mané se levantou para jogar o rato no lixo. Mas… Não havia rato nem queijo. Decepcionado, resolveu comprar uma centena de ratoeiras e distribuí-las por toda a casa.

— Desta vez ele não escapará.

E assim foi feito. Todos os cômodos receberam, pelo menos, uma vintena de ratoeiras. Ao redor da cama, no quarto onde ele dormia, Zé Mané colocou o maior número de armadilhas.

Durante a madrugada, aconteceu uma série de plicts! Sem se levantar, Zé Mané dormiu serenamente.

No outro dia, ainda sonolento, ao deixar a cama, pisou numa ratoeira. Plict! Ela prendeu-lhe o dedão do pé, ele perdeu o equilíbrio e caiu sobre outras ratoeiras. Plict! Plict! Plict! Plict!

Após se desprender das ratoeiras, foi investigar as demais. Adivinhe: nenhum rato, nenhum queijo.

Conversando com um amigo, foi convencido a colocar um gato dentro de casa. Colocou dois para não ter erro. Mas, em vez de caçar ratos, os bichanos miaram a noite inteira, aos pés de sua cama.

De madrugada, Zé Mané foi beber água e viu uma família de ratos roubando os queijos das ratoeiras. Correu para pegar uma vassoura, com a qual iria atacá-los. Não deu tempo. Foi reclamar com o amigo.

— É assim mesmo. Nos primeiros dias, gatos estranham o novo lar. Tenha paciência. Logo, logo eles se acostumam e o instinto de caça entra em ação.

Uma semana depois, na primeira noite em que os gatos deixaram de miar, ele foi ao banheiro. Em seguida, foi à cozinha e encontrou os felinos comendo queijo com os ratos. Foi a gota d’água. Decidiu morar em outro bairro.

O caminhão baú chegou de manhãzinha, com o motorista careca e o ajudante bigodudo. Zé Mané, sem dormir há várias noites, contou o motivo da mudança. O motorista disse:

— O senhor faz bem em mudar de ares. Esses bichos são teimosos, são nojentos. Desejo que encontre paz noutra casa.

Zé Mané só se tranquilizou quando seu último pertence foi colocado dentro do caminhão.

— O senhor não vai levar os gatos?

— Ah! Eles vão ficar bem.

Assim que Zé Mané entrou na cabine, o caminhão partiu. Se o motor do veículo não fosse tão barulhento, eles teriam ouvido vários chip-chip e quiiii, quiiii dentro do caminhão.

Proseando - Maurício Cavalheiro

Maurício Cavalheiro
Maurício Cavalheiro
Membro da Academia Pindamonhangabense de Letras, da UBT União Brasileira de Trovadores e da ABRASSO Academia Brasileira de Sonetistas. Finalista do Prêmio Barco a Vapor – 2024 e do 1º Prêmio Bem-te-vi de Literatura para a Infância – 2025. Possui prêmios literários no Brasil e no exterior, e livros publicados nos gêneros poesia, infantil, romance, teatro, contos e cordel.
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