
ocupa a cadeira nº 30
da APL – Academia
Pindamonhangabense
de Letra
Era um casal perdulário. Ela torrava as economias com a estética corporal. Ele, com a jogatina. Naquele dia, não havia nenhum dinheiro para garantir o almoço. Por isso, a filha gritava de fome.
Não suportando o berreiro, o pai exigiu que a mãe preparasse qualquer coisa. Ela refutou dizendo que a despensa estava vazia e, mesmo que houvesse algum alimento, ela não o prepararia para não danificar as unhas.
Sem compreender a situação calamitosa, a filha continuou gritando. O pai, considerando estapear a filha, recuou quando teve a ideia de almoçarem na casa da sogra.
— Você sabe que minha mãe é sistemática. Em cima da hora, sem avisar, pode esquecer.
— Ah, mulher. É só você pedir com jeitinho.
— Eu não vou ligar. Da última vez ela só faltou me deserdar. Liga você.
A filha já esganiçava em soprano.
— É isso! Qual avó não atenderia ao pedido de uma netinha?
A menina foi amansada e induzida ao plano.
— Filhinha, quer almoçar na casa da vovó?
— Quero!
— Então, presta atenção. Vou ligar pra ela e você vai dizer assim: “Vovó, estou com muita saudade da sua comidinha. Será que eu, a mamãe e o papai podemos ir almoçar aí hoje?”. Entendeu?
— Tendi.
A mãe ligou.
— Alô, vovó. Tô querendo comer a sua comidinha. A senhora pode vir me buscar?
A mãe gesticulava para que a menina não se esquecesse de dizer que o papai e a mamãe também estavam com saudade da comidinha.
— Vovó, a mamãe tá pedindo pra falar que ela e o papai também querem almoçar aí.
A neta trocou mais três frases com a avó, desligou e falou:
— A vovó já tá vindo.
A mulher orientou o marido:
— Não precisa trocar de roupa. Só calce chinelos para ficar mais à vontade. Eu já estou pronta.
A filha olhou para os pais e revelou:
— Vocês não irão. Vovó disse que só tem comidinha pra mim.