Amanda Emídio
O Dia de Finados foi ontem. E há algo curioso nesse ritual coletivo de visitar os mortos, limpar túmulos, levar flores e reservar algumas horas para aqueles que já não estão entre nós. Todo ano, a mesma data, os mesmos gestos, as mesmas lembranças. Um encontro marcado com a ausência. Fico pensando nesse ciclo de vida e morte. Nascemos, crescemos, acumulamos experiências, construímos relações, fazemos planos e, de alguma maneira, passamos a existência pagando uma dívida que nunca sabemos exatamente quando vencerá. Nascemos devendo e morremos devendo. Mas a quem? E quando essa conta será finalmente acertada? Não tenho uma resposta. Poderia recorrer a diferentes doutrinas, falar sobre reencarnação, passagem, transcendência ou sobre as tantas interpretações que a humanidade criou para tentar compreender a morte. Mas, desta vez, minha inquietação está em outro lugar: na filosofia de saber que vou morrer. Você também. Todos nós. Chegamos ao mundo com um prazo que desconhecemos. Temos uma espécie de data de validade impressa em algum lugar que nossos olhos não alcançam. Não sabemos quando será nossa última conversa, nosso último almoço em família, a última vez que veremos determinada paisagem ou ouviremos a voz de alguém querido. E o que fazemos com esse tempo? Enquanto esperamos que a dita cuja venha nos buscar, trabalhamos, pagamos contas, acumulamos compromissos, adiamos viagens e fazemos planos para um futuro que tratamos como propriedade particular. É curioso como organizamos a vida inteira sem ter qualquer garantia que estaremos presentes para conferir o resultado. Eu, particularmente, quero viver. Quero viver intensamente, experimentar, conhecer, escrever, amar, viajar, realizar meus projetos e desfrudas pequenas coisas que fazem a existência valer a pena. Sei que vou embora devendo. Provavelmente com histórias que não contei, lugares que não conheci e uma infinidade de coisas que gostaria de ter feito. E tudo bem. Não acredito que a vida precise terminar com todas as pendências resolvidas. Mas há outra questão que me acompanha quando penso na morte: a saudade. Tenho pensado que sentir saudade não é apenas uma consequência de perder alguém. É também uma espécie de responsabilidade que temos enquanto estamos vivos. Estar disponível para os nossos, cultivar os encontros, telefonar, visitar, ouvir uma história pela décima vez, aceitar aquele café que poderia ser adiado para outro dia, mas que não precisa ser. Não se trata de viver em função dos outros, tampouco de abandonar a própria vida. Trata-se de compreender que as pessoas não estarão eternamente à nossa disposição. E que nós também não estaremos.
Um dia antes do Dia de Finados, fui visitar meu pai. Ele trabalha limpando túmulos e, nessa época do ano, o movimento é intenso. Encontrei-o justamente durante o serviço, cuidando de um túmulo. Conversamos rapidamente, pois não queria atrapalhar seu trabalho. Ao sair, observei algumas pessoas chegando com seus baldes, panos e produtos de limpeza. Fiquei olhando aquela movimentação por alguns instantes. Pensei que aquelas famílias poderiam contratar meu pai para realizar o serviço, mas preferiam fazer a limpeza por conta própria. E comecei a me perguntar o que havia por trás daquele gesto. Seria uma forma de carinho? Uma tradição familiar? Uma maneira de participar pessoalmente da homenagem? Que fosse. Mas minha cabeça foi um pouco além. Fiquei pensando em quantas daquelas pessoas visitavam seus entes queridos somente naquela data. Quantas reservavam um único dia do ano para limpar o túmulo, colocar flores e prestar uma homenagem. Não quero julgar ninguém. Cada pessoa tem sua maneira de lidar com a perda, e não conhecemos as histórias que existem por trás de cada lápide. Há quem não consiga sequer entrar em um cemitério depois de perder alguém. Há quem visite semanalmente. Há quem carregue seus mortos na memória sem precisar retornar ao lugar onde foram enterrados. Ainda assim, aquela cena me levou a uma reflexão: por que, muitas vezes, temos tanta preocupação em cuidar da memória de quem partiu e tão pouca disponibilidade para cuidar das relações enquanto essas pessoas estão vivas? Limpamos os túmulos, escolhemos flores, organizamos homenagens. Tudo isso tem seu valor. Mas e as visitas que não fizemos? As conversas que adiamos? Os abraços que ficaram para depois? A morte transforma a presença em lembrança. E, quando isso acontece, já não temos como negociar um encontro, pedir mais cinco minutos ou dizer que passaremos lá no domingo. Acredito que o Dia de Finados também deva nos fazer pensar nos vivos. Não apenas naqueles que perdemos, mas naqueles que ainda podemos encontrar. Afinal, existe uma diferença enorme entre sentir saudade de alguém e ter a oportunidade de evitar que ela comece. Não sei quando minha dívida com a vida vencerá. Também não sei quanto tempo ainda tenho para realizar meus planos. Mas não pretendo esperar uma data no calendário para demonstrar afeto, visitar meu pai ou estar perto das pessoas que amo. Quero aproveitar o privilégio de ainda poder fazer essas coisas. Pois, se existe uma conta que certamente não conseguiremos pagar por inteiro, é a de todas as experiências que a vida ainda poderia nos oferecer. E, quando chegar a minha vez, espero partir devendo algumas aventuras, algumas viagens, muitas páginas e histórias que não tive tempo de escrever. Só não quero descobrir, tarde demais, que deixei de viver enquanto estava ocupada demais tentando dar conta da vida.









