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A vandalização do capitalismo

“O mundo está se tornando um lugar muito chato, modernizado demais e sem cor.”

Já começo o texto com a seguinte frase: após passar por uma casa que, quando criança, me chamava tanta atenção, eu fantasiava que um dia a compraria — romantizava mesmo.

Aquele seria o meu lugar de refúgio; ela era linda, perfeita, com o charme de casa, e não de caixote ou de um escritório de Odonto.

Eu disse “era”, no passado, porque já não existe mais.

Ela morreu — e cometeram um crime: construíram um prédio comercial.

E não tem nada mais brochante do que você criar grandes expectativas em algo e isso simplesmente eclodir no ar.

Eu parei, observei e pensei: “Nossa, mais uma obra de arte se vai.”

O mundo está ficando sem cor, e isso é nítido.

A arquitetura está mudando, sorrateiramente, e ninguém faz nada, pois estão ocupados demais, apenas aceitando tudo.

Os padrões de casa mudaram, as roupas estão mudando, a música já não é mais a mesma, o entretenimento está engessado e preto e branco — até a nossa alimentação está chata.

A vandalização do capitalismo não está nos grandes discursos, está nesses pequenos apagamentos cotidianos.

Na casa que se transforma em estacionamento, no prédio que vira investimento, no bairro que vira oportunidade.

Tudo precisa dar retorno, tudo precisa performar, tudo precisa justificar a própria existência em números.

E, nesse processo, o que não pode ser medido… é descartado.
A beleza não entra na planilha.

O afeto não valoriza o metro quadrado.

A memória não compete com o lucro.

Então some.

Não é que as pessoas acordaram um dia e decidiram deixar o mundo mais feio.

É mais sutil do que isso.

Elas foram ensinadas a ver tudo como ativo, como potencial de ganho, como algo que precisa ser explorado ao máximo.

E quando tudo vira recurso, nada mais é especial.

A casa que eu amava não perdeu para o tempo — perdeu para a lógica.

Para a ideia de que ela “valia mais” sendo outra coisa.

Mais útil, mais rentável, mais alinhada com o presente.

E talvez seja isso que esteja tornando tudo tão chato.

O dinheiro se tornou o único critério, o mundo perdeu contraste.

Tudo agora, começa a parecer igual, previsível, seguro… e vazio.

A gente trocou o encanto pela eficiência.

E eficiência demais, no fim, não encanta ninguém!

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