
No pequeno canteiro era a única roseira, em compensação valia por um rosal. Às vezes tantas eram nela as rosas que as folhas desapareciam e a planta ficava como um imenso ramo. Era o encanto do meu pai, e a ninguém consentia ele que a tocasse. Tratava-a ele só e até para colher as rosas havia de ser ele, ninguém mais! E quando a roseira florescia toda a nossa pequenina casa enchia-se de aroma.
Que abundância de rosas! Eram rosas para o oratório, rosas para as jarras da sala, rosas enfeitando a mesa de jantar, rosas em todos os quartos e ainda sobravam rosas para a vizinhança. Se eu me aproximava da planta logo meu pai bradava carrancudo: “Não lhe ponhas a mão!”
Um domingo — em casa ficara apenas a velhinha — condoído da sorte da roseira, resolvi prestar-lhe um benefício: “Coitada! Tão boa e tão crivada de espinhos! Sempre coberta de rosas apesar de tamanho sofrimento. Parece uma santa a fazer milagres com o corpo atravessado de setas.” Assim pensando muni-me de uma faca e pus-me a raspar a planta, despontando-a, desde o mais raso do tronco até o ramo mais tênue.
Que linda ficou, lisa e branca! Deitei-me cedo e adormeci pensando na surpresa que meu pai teria de manhã quando a visse sem um só espinho.
Ai de mim… Que despertar o meu! “Venham ver o que fez esse perverso!…” E, arrastado furiosamente até o canteiro vi, com efeito, a planta agonizante: as rosas fanavam-se lânguidas, desfolhando-se, os botões pendiam flácidos, as folhas murchas encolhiam-se e os ramos vergavam amolecidamente. — Olha a tua maldade! rugiu meu pai.
— A minha maldade!? Sim… Fui eu. Mas se assim fiz não foi por maldade, foi de pena. Sofria tanto, a coitada! Tu só lhe tiravas as rosas sem te importares com os espinhos. Eu cuidei que lhe fazia bem. Não foi por mal. E chorava com remorso do que via: a morte da planta e a tristeza do meu pobre pai. Quis fazer bem e… O que é a gente não conhecer a vida.
É talvez, por ser como o coração, que a roseira o reproduz nas pétalas das suas flores. Também o coração desabrocha em alegria, como se abre em rosas a roseira, mas o riso vibra e passa, efêmero como a flor. As dores, essas, quem as quiser tirar do coração há de arrancar-lhe a vida, como eu fiz à roseira raspando-lhe os espinhos.
Coelho Neto, Tribuna do Norte, 15/6/1922