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Jornal Tribuna do Norte

A PROVA QUE NÃO TERMINOU NO QUARTEL

Há algumas semanas, o jornalista Altair Fernandes Carvalho resgatou, nas páginas deste jornal, uma curiosidade dos tempos em que o 2º Batalhão do 5º Regimento de Infantaria estava aquartelado em Pindamonhangaba. A população era convidada para assistir a competições esportivas entre os militares, verdadeiros espetáculos de habilidade e disciplina.

Entre elas, uma me chamou particularmente a atenção: a Prova Tenente Antonio João, em que os soldados precisavam desmontar e montar uma metralhadora pesada com os olhos vendados.

A lembrança me levou diretamente a uma história de família.

Embora a crônica de Altair se refira aos anos 1930 e à infantaria, em meu livro Pindamonhangaba no Século XX, conto a trajetória de meu pai, José Augusto Rodrigues, o inesquecível Seu Té.

Ele serviu no 1º Batalhão de Carros de Combate Leves, em Pindamonhangaba, tendo ingressado em 1º de novembro de 1945 e deixado a corporação, já como 3º sargento, em março de 1947.

Entre as muitas histórias que ouvíamos em casa, havia uma que sempre despertava admiração. Meu pai participou justamente de uma dessas provas de desmontagem e montagem de armamento com os olhos vendados. E venceu. Primeiro lugar.

Quando criança, eu imaginava aquilo como um número de ilusionismo. Como alguém seria capaz de reconhecer cada peça apenas pelo toque, encaixando mecanismos metálicos sem enxergar absolutamente nada?

Com o tempo compreendi que não se tratava apenas de treinamento militar. Era o exercício máximo da concentração, da memória e da confiança nas próprias mãos.

Talvez ali estivesse sendo moldado o homem que meu pai se tornaria depois da farda.

Ao retornar à vida civil, Seu Té abriu uma oficina mecânica. O mesmo talento que lhe permitia identificar uma peça de armamento sem vê-la passou a resolver motores, engrenagens e máquinas das mais variadas.

Não demorou para que sua criatividade fosse além da mecânica convencional. Ele desenvolveu e patenteou um sistema de distribuição de água e iluminação para fontes ornamentais.

Nasciam as famosas “fontes das águas dançantes”, também conhecidas como “teatros das águas”. Nas décadas de 1950 e 1960, seus equipamentos foram instalados em diversas cidades dos estados de São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro.

As apresentações atraíam visitantes e transformavam praças em pontos de encontro e encantamento.

Sempre achei bonita essa coincidência da vida.

Um jovem soldado, treinado para montar uma metralhadora de olhos vendados, tornou-se um inventor capaz de criar espetáculos de água e luz para serem admirados por milhares de olhos bem abertos.

As provas militares ficaram no passado. Os quartéis mudaram, os batalhões partiram e as competições desapareceram.

Mas algumas vitórias continuam ecoando muito além dos muros do Exército, porque certas habilidades não servem apenas para a guerra. Servem, sobretudo, para construir beleza, trabalho e memória.

E disso Pindamonhangaba também é feita.

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