
Era uma vez uma princesa muito linda que tinha os cabelos de ouro. A rainha, sua madrasta, que não a podia ver, fez com que o rei a mandasse para o deserto, abandonando-a para que as feras a comessem.
Ora, não eram passados ainda cinco dias quando a princesa apareceu no palácio de seu pai montada num leão.
A encarar com ela, a madrasta aconselhou o rei a mandá-la para as montanhas onde só viviam os abutres; mas no quarto dia foram essas aves que a conduziram de novo para o paço real.
Então a madrasta ordenou que levassem a princesa para uma ilha onde não havia ninguém; e, afinal, os pescadores não tardaram a apresentá-la no palácio.
A madrasta, vendo isto, deu ordens para que cavassem no jardim um poço muito fundo, enterrando ali a princesinha.
Ao fim de seis dias, no lugar em que o poço fora aberto, viu-se brilhar uma luz. O rei fez remover a terra, e qual não foi a sua surpresa quando os criados encontraram de repente um grande palácio com portões de prata, defendido por dragões.
Espantado de tanta riqueza, o rei quis entrar, mas os dragões opuseram-se a isso, e uma voz vinda do exterior exclamou:
— Vai-te! A princesa que quiseste matar está aqui bem guardada. E ainda um dia precisarás dela.
Na verdade, passados anos, a peste e a fome devastaram seu reino. Ninguém tinha o que comer.
Só havia miséria por toda a parte. O rei, velho e doente, tomava aquilo por castigo e lamentava-se pelo mal que fizera à sua filha inocente.
Uma tarde, estando no jardim, debaixo duma árvore, a chorar com pena da princesa e arrependido das suas maldades, viu que perto dele se abria um grande buraco, de onde saía uma fada muito linda.
Aproximando-se, a fada pegou-lhe pela mão e levou-o até junto da cova, em que havia uma escada. O rei desceu por ela e em breve chegava ao riquíssimo palácio em que havia riquezas sem conta.
Sentada num trono estava uma menina muito formosa que correu a abraçá-lo chamando-lhe pai e rindo de contente; era a princesa!…
O rei ajoelhou para pedir-lhe perdão, mas ela levantou-o e tornou a abraçá-lo, oferecendo-lhe depois todo o dinheiro que precisasse para dar de comer ao seu povo e salvar o país, porque a princesa, que tinha casado com um príncipe poderosíssimo, era muito rica.
Em troca do mal recebido, só pensava em fazer bem.
Verdade seja que o rei, depois de ter desterrado a sua madrasta, nunca mais se separou da filha a quem queria tanto como a luz de seus olhos.
Tribuna do Norte, 19 de outubro de 1930 (autor não identificado).









