
Outro dia, fui fazer uma gravação em um ateliê de perfumes e essências naturais e artesanais e ganhei um presente daqueles: uma fragrância criada especialmente para mim. A proposta era descobrir quais aromas combinavam com o meu gosto e, no fim, levar para casa um perfume exclusivo, com uma composição escolhida a dedo.
Na experiência, descobri que gosto de notas doces e amadeiradas. Minha combinação levou lavanda, chocolate e almíscar. Uma mistura, digamos, peculiar, inusitada. Talvez um pouco estranha e, definitivamente, marcante. Bem a minha cara, aliás. Nunca tive muita vocação para ser unanimidade.
Quando o perfume ficou pronto, cheirei o frasco e não achei lá grande coisa. Confesso que fiquei meio decepcionada. Mas coloquei um pouco no pulso, esperei alguns segundos e… voilà! A bonita aqui estava apaixonada pela própria criação.
Foi curioso perceber como a fragrância mudou na minha pele. O mesmo perfume pode ganhar nuances diferentes em cada pessoa, porque a química da pele interfere no resultado. Ou seja, não basta ter um bom currículo olfativo: tem que ver como a coisa funciona na prática.
E isso me lembrou o tanto de coisa que a gente julga pela primeira impressão. Uma roupa no cabide parece um acontecimento; no corpo, uma ocorrência policial. A gente decide cortar o cabelo, mostra a foto da atriz para o cabeleireiro e sai de lá com um corte conceitual. A atriz continua linda, e a gente aprende que referência é uma coisa; realidade é outra. E aquele perfume maravilhoso na amiga pode deixar a gente com cheiro de desinfetante.
Com o tempo, a gente vai descobrindo preferências, mudando de ideia e experimentando versões de si mesma. Tem coisa que aos 20 a gente usa com a maior convicção. Anos depois, olha a foto e pensa: quem era essa mulher e por que ninguém a impediu? Outras, que antes pareciam estranhas, de repente fazem todo sentido.
Minha fragrância, por exemplo, talvez não agrade a todos. Lavanda, chocolate e almíscar não são exatamente uma mistura digamos, padrão. Mas eu gostei. E, convenhamos, depois de certa altura da vida, a gente já tem problemas suficientes para ainda precisar de aprovação unânime sobre o próprio perfume.
Agora, quando alguém perguntar que perfume estou usando, vou poder dizer que é exclusivo. Se vai gostar, já não posso garantir. Como eu disse lá no começo, nunca fui muito fã de unanimidades. E isso não é só sobre perfumes.









