Dedico este Proseando aos alunos da professora Catarina, da Escola Mário Bonoti, que me enviaram adoráveis cartinhas sobre a coluna e a Tribuna do Norte.
Quando volto da escola, passo por uma pracinha abandonada. Há, nela, um parquinho com brinquedos quebrados e enferrujados. A grama está tão alta que dá até para se esconder nela. Algumas flores teimosas perfumam o local. Sobre elas, abelhas faziam zum-zum-zum.
Na última sexta-feira, passei por lá assoviando. Eu estava muito contente. Minha nota em Português foi uma das maiores da sala e, no fim de semana, eu iria ao cinema.
Eu já estava saindo da praça quando ouvi:
— Aonde pensa que vai?
Parei. Olhei para trás. Não vi ninguém. Continuei andando.
— Vai me ignorar?
Eu olhava em todas as direções e não via ninguém. Dei uma volta pela praça e nada. Não havia mais ninguém ali além de mim.
— Deixa de ser bobo. Estou aqui.
— Onde?
— Na árvore.
Olhei para a copa da sibipiruna antiga, cujas grossas raízes haviam rachado a calçada. Mas não vi ninguém. Seria o sol do meio-dia cozinhando os meus miolos? Ou alguém engraçadinho pregando peça.
— Aqui, menino. No galho, à sua direita.
— Onde?
— Vou dar pulinhos para você me ver.
Então eu vi. Era uma coruja usando óculos. Ela abriu as asas e veio pousar em meu ombro. Delicadamente, bicou a minha orelha e cochichou:
— Você gostaria de conhecer o Harry Potter em carne e osso?
— O ator? — perguntei surpreso.
— Não. O bruxo de verdade.
— Ele não existe na vida real. Ele é só um personagem dos livros e do cinema.
— Será? E coruja que fala, existe?
Papagaio eu sei que repete palavras. Mas, coruja? Nunca vi.
Fechei os olhos e chacoalhei a minha cabeça na esperança de a avezinha desaparecer.
— Desse jeito você vai ficar com cefaleia.
— Cefaleia? O que é isso?
— Isso é dor de cabeça.
— Dor de cabeça com esse nome? Deve ser dor de cabeça de rico.
— Dor de cabeça ou cefaleia é de rico, de pobre… de todo mundo.
Se alguém me visse conversando com a coruja, diria que eu estava ficando doidinho.
— Dona Coruja, eu preciso ir embora. Minha mãe deve estar preocupada.
— Pode ir. Mas se for agora, não vai conhecer o Harry.
— Para de mentir. Cadê ele então?
— Você vai precisar colocar os meus óculos para vê-lo.
Vi que não havia lentes nos óculos da coruja. Mas, mesmo sem acreditar, fiz o que ela disse. Coloquei os óculos dela e ela… se transformou no Harry Potter. Ele sorriu para mim. Nem consegui acreditar.
Vou logo avisando: se você vir um menino com óculos sem lentes, não tenha dúvida: sou eu. Mas não adianta pedir. Eu não empresto meus óculos a ninguém.









