Fiquei impactado ao reencontrar estes versos de Orides Fontela: “Nunca amar o que não vibra, nunca crer no que não canta”. Coloquei-os num painel que tenho aqui, perto de meu computador e, desde então, vivo recordando esse poema como uma prece feita em pensamento. A mensagem, que, num primeiro momento, soa excludente, tem me motivado a buscar em tudo e em todos o que lhes faça fulgurar, pois não existe criatura que não possa vibrar ou cantar – o que lhe falta, muitas vezes, é oportunidade e à gente, sensibilidade (ou modéstia) para perceber quando o outro cintila.
A própria Orides prova o que digo: brilhou tanto e teria brilhado muito mais se não tivesse sido tão pouco notada em vida. Essa ideia de homenageá-la na próxima Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) tem “o açúcar e o afeto” de uma reparação!
Como escreveu José Saramago, “se podes olhar, vê; se pode ver, repara”! Sempre exultei no duplo sentido desse ato de reparar: significa notar, observar, mas também cuidar se for preciso, restaurar, devolver a dignidade, restituir a beleza original, a beleza que só reconhece quem tem olhos para enxergar e sentir.
Naturalmente, isso me lembra que o ofício de escritor impõe que eu veja, que eu sinta o que vibra mesmo quando não vibre e ouça o que canta mesmo quando não cante. A vida se faz assim, entre brilho e sombra, música e silêncio; ora, se a arte é uma reprodução do que vivemos, é preciso estar atento, vigilante, humana e poeticamente desperto.
A propósito, escrevo atualmente uma série juvenil voltada para nossa conexão com a natureza e com todos os seres, já que somos todos partes de um mesmo corpo. Por isso, tenho procurado estar muito acordado, mais arisco que uma saracura-do-brejo, tão meticuloso quanto aquela aranhazinha dependurada no telhado do curral. A vida é esse espetáculo imperdível, pessoal!
Felizmente, esse exercício de observar a natureza e os seres, especialmente crianças e adolescentes (nossos alunos!), tem me ensinado muito. Aprendo a cada dia que cada ser é uma lição: suas motivações, suas atitudes tudo esclarecem quando não nos falta paciência para olhar, assimilar, reparar.
Julgamentos apressados, como os que se acotovelam no nosso cotidiano, põem a perder preciosidades. Contra isso, tenho treinado a paciência, o cuidado de respirar antes de determinar “é isso, é aquilo”. Busco a perfeição? Não, apenas um modo de compreender o mistério, tentando manter-me imune à correria, ao desleixo, ao preconceito, a tudo o que embaça a visão e adia o sentir além de sombras e silêncios (ou ruídos). Algumas vezes, consigo; noutras, naufrago.
Mas, afinal, onde vai desaguar essa conversa? Bem aqui: uma das tarefas do educador é, justamente, identificar possibilidades (ou criá-las) a fim de estimular e orientar cada um para o melhor da existência; em outras palavras, nosso trabalho é fazer vibrar, é fazer cantar, pois isso traz um bem imenso ao mundo.
Tudo bem, concordo: há muito que administrar em uma sala de aula, não são poucos os desafios. Façamos então um combinado: evitemos amar o que não vibra e crer no que não canta, como alertou Orides (ela nos legou uma medida protetiva, percebem?); mas propiciemos que o melhor aconteça (vibre! cante!) onde houver necessidade de transformar o real e encantar a vida, como tem encantado a mim um poema de apenas 12 palavras, as quais inspiraram as quase seiscentas deste texto.









