Normalmente, as pessoas veem a resignação como uma submissão aos acontecimentos trazidos pela força do destino, o que as remete à passividade diante da própria vida.
É notório que sofremos com o impacto do que nos acontece. Entretanto, passado o choque ou o luto, torna-se imperioso refletir, aceitar os acontecimentos, respeitá-los e buscar traçar novas rotas para alcançarmos a planície da resignação. A aceitação é uma postura de coragem perante a vida.
Não foi à toa que o grande psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung proferiu a célebre frase: “O que negas te subordina; o que aceitas te transforma”.
É claro que o resignado sofre e se queixa da realidade que vive, mas não deve permanecer paralisado diante das dores do ocorrido. Muitas vezes se confunde obediência com resignação. A obediência implica o consentimento da razão para seguir uma direção ou lei (seja divina ou humana), guiando-se pelo livre-arbítrio com vistas a escolher e praticar o bem. Já a resignação está ligada, por vezes, à aceitação sincera do inevitável, daquilo que foge ao nosso controle, encarando o sofrimento como oportunidade de aprendizado e evolução — jamais como simples conformismo ou passividade.
Surge então a grande indagação: como os filósofos têm encarado esse fenômeno?
Marco Aurélio (121–180 d.C.), ex-imperador romano e figura importante do estoicismo — corrente que valoriza a resiliência emocional, o controle das próprias ações, a aceitação do que não pode ser mudado e o autoconhecimento — afirmava que a resignação é inteligente, pois ajusta a mente para aceitar os acontecimentos. Há nela um consentimento do coração e da razão para preservar a dignidade.
Por outro lado, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788–1860) propõe a resignação como caminho para a libertação do sofrimento causado pelo desejo incessante. Para ele, de visão pessimista, aceitar o caráter doloroso da existência conduz a um estado de quietude e liberdade interior.
Já no século XX, outro filósofo alemão, Friedrich Nietzsche (1844–1900), conhecido por suas críticas à moralidade, à religião e à filosofia ocidental, autor de Assim Falou Zaratustra e Genealogia da Moral, via a resignação — especialmente associada ao cristianismo e à filosofia de Schopenhauer — como sinal de fraqueza e negação da vida. Como alternativa à resignação passiva, propôs o conceito de “Amor Fati”: amar o destino, amar a vida como ela é, com dores e sofrimentos. Para ele, o ser humano deve transformar o sofrer em criar e inovar, substituindo o “não” resignado por um “sim” afirmativo e triunfante à existência.
Nesse sentido, é importante lembrar o pensamento do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre (1905–1980), autor de O Ser e o Nada. Para Sartre, a resignação passiva é o oposto da existência autêntica — uma postura de “má-fé”. O indivíduo, que é “condenado a ser livre”, não pode se refugiar no determinismo. A resignação passiva seria uma tentativa frustrada de fugir da angústia da responsabilidade. A ele é atribuída a frase: “Não importa o que a vida fez de você, mas o que você fez com o que a vida fez de você”.
Tudo isso nos leva à importância de assumir a responsabilidade por nossas escolhas, agir sobre o mundo — sem esperar necessariamente sucesso ou recompensa — e não nos colocarmos na posição de vítimas permanentes da vida.









