
Artigo publicado na Tribuna nos anos 40 revela como era o centro desta “cidade princesa” no fi nal do século XIX.
O teatro de Pindamonhangaba que, segundo o historiador Athayde Marcondes, começou a funcionar em 1856 e teve a sua frente completamente reformada em 1878, fi cava em frente à Praça Monsenhor Marcondes na avenida Dr. Jorge Tibiriçá.
É da edição de 18 de julho de 1943, deste jornal, o artigo de Lellis Vieira, na época colaborador da Tribuna do Norte, porém, morador e empregado na capital paulista, onde ocupava o cargo de diretor do Departamento de Arquivo do Estado.
Relatando lembranças de um pouco antes, quando viera viver neste município, Lellis Vieira, que também fora empregado no comércio, inicia descrevendo alguma coisa de como era a vida nos balcões do comércio da Pinda antiga (lembrando aqui o título da obra da saudosa escritora Eloyna Salgado Ribeiro: “Vida nos Balcões da Pequena Pindamonhangaba…” ).
“Conheço Pinda desde 1893, quando aí trabalhei no comércio: farmácia do Custódio de Paula Queiroz, laboratório de um vinho chamado ‘Molarinho’, cujos rótulos eu bordava com uma caligrafi a bem bonita; casa de calçado de Antônio Bracarense Salgado, onde vendia botinas de elásticos a 15$000 o par, daquelas bem ringideiras e sapatos mais fi nos ‘de entrada baixa’ como se dizia, a 20$000, sem calçadeira, que não existia nesse tempo. Era na unha…”.
Prossegue Lellis relembrando o que já eram “coisas da Pinda antiga” naqueles anos quarentas em que viviam.
“Depois e por fi m, fui vender açúcar mascavo no armazém do Luiz Guimarães; carregar tinas de bacalhau da estação para o depósito, mantas de carne seca, résteas de cebola e caixões de cerveja ‘Pá’, ‘Mainz’, queij o do reino, barril de vinho vendido aos ‘martelos’, cal que o velho Cornélio Lessa comprava muito para as suas construções; e, às quintas-feiras, passeio com gravata de lacinho no belíssimo (então…) jardim do Paraíba, o Botafogo pindense”.
Sobre a vida cultural daquele fi nal de século XIX, assim recorda o antigo articulista e colaborador da Tribuna.
“À noite, teatro com a Luiza Leonardo, o Matos, o Peixoto, representando-se o ‘Periquito’ pela Amélia Lopícolo, de calção… naquele tempo um perigo, o ‘Dom Cesar de Bazan’, e aqui Lellis sendo que os camarotes não tinham cadeiras. A gente que frequentava os espetáculos tinha de mandar as cadeiras de palhinha, conduzidas na cabeça dos petizes…”.
Prosseguindo, Lellis Vieira destaca que se Pindamonhangaba contava, na época, com 238 anos, fazia 50 que ele conhecia “…essa linda terra acolhedora”.
E confessa: “Devo ter saudades desse meio século de adolescência e tenho deveras uma certa amizade por esse rincão civilizado”.
Revela que ao chegar à capital havia enfrentado trabalhos árduos; fi zera progressos, estudara o que fora possível e com grandes mestres e que de caixeiro passara a guarda-livros.
Sobre suas conquistas na cidade grande até faz o seguinte e bem humorado comentário.
“Diz a Faculdade Americana da Virgínia e outras universidades do mundo que sou ‘doutor’ (de rite) ‘in honoris causa’ e mais títulos honorífi cos de sapiência provinciana”.
Como forma de provar o seu amor pela “cidade princesa” ele assim encerra.
“Seja como for, gosto imensamente de Pinda, e não pretendo mudar de hemisfério (o outro mundo) sem um ‘repouso virgiliano’ numa chacarazinha solitária e cheia de canários…”.








