E talvez seja aí que mora o perigo.
A gente cresce acreditando que propósito é destino — algo grandioso, quase sagrado. Mas, na prática, ele se comporta mais como um luxo. E luxo, você sabe… nem todo mundo pode se dar ao direito de ter. Porque enquanto alguns estão descobrindo o que amam, outros estão ocupados demais tentando pagar a conta de luz.
Após várias “tomadas” de decepção, por um caminho curioso — e até meio irônico — eu caí de paraquedas aqui no jornal. Digamos que, de alguma forma, eu precisava estar aqui. Talvez seja aquilo que dizem: Deus escreve certo por linhas tortas. Eu rodei demais, procrastinei demais — e, sim, talvez tenha um pouco de TDAH não diagnosticado nisso tudo. Preferi o doutor Google.
A vida, no fim das contas, me empurrou. E me colocou no meu devido lugar.
“Amanda, você tem que escrever. Você tem que hablar.” Toda vez que entro num desses picos de energia — quase uma mania criativa — eu volto. Escrevo, tenho ideias, quero ganhar o mundo. E, claro… depois passa.
Aí entra a velha urgência: pagar contas, sobreviver, alimentar essa fome incessante do capitalismo. Então eu invento um novo plano. Um novo trabalho. Um novo começo. Três meses. Esse é o tempo exato até o desânimo chegar. E aí eu volto pro mesmo ponto.
“Mas Amanda… por que você não escreve? Você nasceu pra isso, querida.” E é aí que mora o perigo: isso vira um ciclo. Um vício. Uma armadilha.
E talvez eu finalmente tenha entendido. Não é sobre insistir em caminhos que me esvaziam só porque eles parecem mais seguros. Também não é sobre romantizar o caos e fingir que sobreviver não importa.
É sobre aceitar uma verdade meio inconveniente: eu amo o que faço. Escrever. Criar. Inventar mundos enquanto o meu próprio desmorona um pouco. E por mais que eu tente fugir disso — abrir empresas, começar do zero, me reinventar em versões mais “aceitáveis” de mim mesma — sempre acontece a mesma coisa: eu volto.
Como se fosse um chamado. Ou uma cobrança. Ou um destino com um senso de humor duvidoso.
A vida já me mostrou, de todas as formas possíveis, que o meu propósito não é algo que eu escolho ignorar. Ele me persegue. E, no fim, talvez a grande lição não seja escolher entre propósito e sobrevivência… mas aprender a flertar com os dois sem me abandonar no processo.








