Muares do Chão Pequeno é uma cidadezinha que nenhum cartógrafo registrou. Fica do outro lado do oceano, esteja você lá ou cá. Trata-se de um aglomerado de poucas dúzias de casebres, com um punhadinho de habitantes. Apesar da exaurida mina de ouro, o local é desprovido de infraestrutura: esgoto corre a céu aberto; iluminação pública, não há; instituição de saúde, nem em pensamento. É nessa cidadezinha que mora o Pai Chouriço, um anão fantasiado de índio.
Pai Chouriço é o único habitante estrangeiro. Cansado de atravessar continentes, ele abandonou o circo para viver no bem-bom, e encontrou em Muares do Chão Pequeno o lugar ideal. Ele é um charlatão de lábia refinada, que troca conselhos por moedas de ouro.
Certa vez, Pacuera, o ajudante-de-coisa-nenhuma, foi procurá-lo reclamando de pressão alta. Sem fugir do método, Pai Chouriço fê-lo se deitar no chão de terra batida, assoalho de todas as casas, e o inquiriu. Em uma das respostas, o consulente revelou que dormia em um beliche, na parte mais alta. A revelação foi o gatilho para que Pai Chouriço oferecesse a solução, por três moedas de ouro.
— Sua pressão está associada à altitude. Comece a dormir na parte de baixo e sua pressão se normalizará. E faça chá de penugem com essas folhinhas que lhe dou.
Recentemente, dona Inês Pinha o procurou aos prantos. Motivo: não conseguia conviver com a própria feiura. Pai Chouriço deu a ela um macinho de erva-purgatória, cobrou dez moedas de ouro e foi à residência dela, onde encontrou dezenas de espelhos. Ele quebrou todos.
— Não dá azar, Pai Chouriço?
— Azar é você ficar se olhando neles.
No mês passado, Zé Magrelo e sua esposa de beleza incomparável foram procurá-lo. Contaram que estavam passando por um período de conflitos gerados por insignificâncias. Sabiam disso, mas nenhum dava a mão à palmatória.
— O caso de vocês é complicado.
— Quer dizer que não tem solução?
— Pai Chouriço tem a solução para tudo. Por duzentas moedas de ouro eu garanto que vocês nunca mais irão brigar.
Zé Magrelo não possuía duzentas moedas; por isso, bateu de porta em porta pedindo emprestado. Com a quantia exigida arrecadada, foi acompanhado da esposa à casa de Pai Chouriço.
— Duzentinhas. Pode contar.
— Confio em você, Zé Magrelo. Agora você pode ir. Daqui a um mês volte para pegar a sua mulher.
— Como assim?
Pai Chouriço cochichou:
— Você não quer viver em paz? Eu vou reeducá-la.
No mês seguinte, Zé Magrelo voltou à casa do Pai Chouriço. Estava fechada. A vizinha, debruçada na janela, comunicou:
— Ficou sabendo, não? Ele se mudou na semana passada sem deixar o novo endereço. Foi embora de beijos e abraços com a sua mulher.