Conheci um andarilho muito idoso que morava no cemitério. Ele era franzino e levemente curvado. Seus cabelos, barba e bigode eram fios de prata, embaraçados e encardidos. Seus olhos tinham a cor da tristeza irreversível. Para a maioria das pessoas, ele era um fantasma. Para mim, um homem sofrido que precisava de ajuda.
Todas as vezes que ia ao cemitério, eu o abordava. Meses atrás, conversamos demoradamente, e ele desabafou.
Em prantos, contou-me que a sociedade sempre zombava dele por ser coxo. Disse também que a noiva o trocara por um bilionário. Tentando conter as lágrimas, levou-me a um túmulo suntuoso, mas abandonado.
— Aqui está sepultada a mulher da minha vida. Infelizmente, o nosso amor foi proibido pelos pais dela, e a ganância a fez trocar o assalariado honesto pelo empresário inescrupuloso. Juro que diariamente tento esquecê-la, mas não consigo.
Depois de alguns soluços, ele pediu:
— O senhor poderia me arrumar papel e lápis?
Entreguei a ele a caneta e o caderninho que levava comigo para anotar inspirações. Ele agradeceu e prometeu me devolver quando nos reencontrássemos.
Na semana seguinte, voltei ao cemitério; o zelador me informou que o andarilho havia falecido.
Perambulei pelas ruelas fazendo orações e, sobre o túmulo da amada do andarilho, encontrei o meu caderninho.
Nele estava escrito:
É madrugada… A lua cheia espia
a cidadela onde o passado mora;
pelas ruelas vê a brisa fria
varrer as folhas outonais de outrora.
Num galho seco, a corujinha pia
versos cruéis, que irão contar à aurora
que, sob a campa suntuosa, expia
a prepotência de uma vil senhora.
E a devorar segundo por segundo,
a morte vive percorrendo o mundo,
sem se curvar a preces ou pesares.
E, assim, em terras da mansão sem vida,
em cada campa, nova ou carcomida,
jazem: soberba, orgulho e familiares.









