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O ÚLTIMO SONETO

Conheci um andarilho muito idoso que morava no cemitério. Ele era franzino e levemente curvado. Seus cabelos, barba e bigode eram fios de prata, embaraçados e encardidos. Seus olhos tinham a cor da tristeza irreversível. Para a maioria das pessoas, ele era um fantasma. Para mim, um homem sofrido que precisava de ajuda.

Todas as vezes que ia ao cemitério, eu o abordava. Meses atrás, conversamos demoradamente, e ele desabafou.

Em prantos, contou-me que a sociedade sempre zombava dele por ser coxo. Disse também que a noiva o trocara por um bilionário. Tentando conter as lágrimas, levou-me a um túmulo suntuoso, mas abandonado.

— Aqui está sepultada a mulher da minha vida. Infelizmente, o nosso amor foi proibido pelos pais dela, e a ganância a fez trocar o assalariado honesto pelo empresário inescrupuloso. Juro que diariamente tento esquecê-la, mas não consigo.

Depois de alguns soluços, ele pediu:

— O senhor poderia me arrumar papel e lápis?

Entreguei a ele a caneta e o caderninho que levava comigo para anotar inspirações. Ele agradeceu e prometeu me devolver quando nos reencontrássemos.

Na semana seguinte, voltei ao cemitério; o zelador me informou que o andarilho havia falecido.

Perambulei pelas ruelas fazendo orações e, sobre o túmulo da amada do andarilho, encontrei o meu caderninho.

Nele estava escrito:

É madrugada… A lua cheia espia
a cidadela onde o passado mora;
pelas ruelas vê a brisa fria
varrer as folhas outonais de outrora.

Num galho seco, a corujinha pia
versos cruéis, que irão contar à aurora
que, sob a campa suntuosa, expia
a prepotência de uma vil senhora.

E a devorar segundo por segundo,
a morte vive percorrendo o mundo,
sem se curvar a preces ou pesares.

E, assim, em terras da mansão sem vida,
em cada campa, nova ou carcomida,
jazem: soberba, orgulho e familiares.

Proseando

Maurício Cavalheiro
Maurício Cavalheiro
Maurício Cavalheiro é um escritor e trovador brasileiro, natural de Pindamonhangaba, São Paulo. Ele é conhecido por suas obras na forma de trova e também por sua coluna "Proseando" no jornal Tribuna do Norte. Além disso, é membro da Academia Pindamonhangabense de Letras, da União Brasileira de Trovadores (UBT) e da Academia Brasileira de Sonetistas (ABRASSO).
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