A avó, uma das pessoas mais ricas da cidade, se vestia e agia com simplicidade. Ela era conhecida como “a bondosa senhora dos cabelos lilases”.
Todos os dias ela saía para caminhar com o mesmo sorriso doce, e quando encontrava alguém na linha estrema de pobreza, ela ajudava.
Infelizmente, desde que ficou viúva, ela optou pelo isolamento, com raríssimas idas ao jardim ou para receber o tabelião de notas.
A “bondosa senhora dos cabelos lilases” foi encontrada sem vida pelo neto que só aparecia para pedir dinheiro. Ele a encontrou na biblioteca, debruçada na escrivaninha sobre envelopes com o nome dos membros da família.
Ele pegou o envelope destinado a ele, abriu e leu:
“Meu querido neto,
Eu sempre te amei, mesmo não concordando com as tuas atitudes levianas, como me agredir com palavras obscenas.
Lembras-te daquela vez que me empurraste e eu bati com a cabeça na mesa? A cicatriz na testa nunca me deixou esquecer…
E quando colocaste laxante no meu suco! Passei horas no banheiro. Sofri com as assaduras. Mas isso já faz muito tempo…
Recordas-te do rato que colocaste em minha cama enquanto eu dormia? Desmaiei, te lembras? Mas isso também já faz tempo…
Tento esquecer, mas não consigo, o dia em que começaste a me extorquir dinheiro. Devias ter procurado um emprego.
Fico muito aborrecida quando alguém diz que não tens onde cair morto. Foi pensando nisso que resolvi garantir o teu futuro.”
Assim que terminou de ler, ele comunicou a morte da avó aos familiares.
Depois do sepultamento, o tabelião de notas fez a leitura do testamento:
— …para a minha filha, deixo a rede de hotéis; para o meu filho, a cobertura em Nova Iorque; para a minha neta, as minhas aplicações financeiras; e, para o meu neto, deixo o terreno na ala nobre da Alameda dos Cravos, quadra X, lote 31.
O neto, que desconhecia o bem herdado, perguntou ao tabelião a localização do imóvel.
— O terreno fica no cemitério da saudade, ao lado do túmulo de sua avó.









