O inverno, para mim, é o momento de fazer aquela limpa em casa. Abrir armários, fuçar em gavetas e separar o que já não tem serventia. Nem sempre uma delícia, quase sempre um martírio: muita indecisão, rinite e espirros. Por outro lado, encontrar objetos antigos e esquecidos é puro deleite. Nessa última limpa, entre as tranqueiras mais ternas estava uma bolsinha cheia de moedas estrangeiras. Observei-as uma a uma e, em segundos, elas me transportaram para o lugar de onde vieram e me levaram a refletir um pouco sobre a vida.
Os cents, por exemplo, me lembraram do trabalho hercúleo que foi aprender a usar aquelas moedas nas minhas primeiras semanas vivendo fora. Sempre que eu comprava algo, tinha que fazer contas, converter valores de cabeça, abrir a bolsinha e identificar os valores das moedas para, finalmente, depois de algum tempo (longo para mim e eterno para o rapaz do caixa), pagar corretamente. No fim das contas, eu acabava desistindo de tudo, tirava da carteira uma nota grande e pagava a conta. O troco, adivinhem: mais moedas.
E, embora isso acontecesse em diferentes países, a humilhação era sempre maior em cidades nas quais a vida corre em velocidade 2x.
Mas o fato é que o ser humano se adapta a quase tudo (o que pode ser uma salvação ou uma cilada das grandes) e a vida longe de casa chega a tomar, em alguns momentos, traços de algo estranhamente familiar. Aprendemos a falar como eles (com sotaque ou não), a andar na mesma velocidade que eles, a dançar e a cantar as músicas deles. Aprendemos a rir com o humor deles e a valorizar o tempo como eles.
E, depois de algum tempo, sacamos que vida de estrangeiro é uma transação: recebemos hospitalidade e pagamos adotando os modos de vida do lugar – uma transação que, muitas vezes, sai cara demais para muitos imigrantes. Quase sempre, vão-se as maiores notas e ficam as moedas (que nunca serão usadas).
No meu caso, me adaptei como pude e aprendi, por exemplo, sobre o valor inestimável da feijoada e do pão de sal, entre outras coisas. Mas, independentemente de quão longa seja a viagem, o fato mais interessante é que o retorno é sempre um acontecimento estranho e inesperado: nossa casa já não é a mesma (ou talvez ela nem esteja mais lá).
Depois de uma grande experiência como essa, tudo nos parece um pouquinho diferente (e não estou falando só de CEP).
A experiência transformadora de ultrapassar limites (geográficos, culturais ou sociais) pode nos tirar dos trilhos, trazer novas perspectivas e revelar algo muito íntimo: quando retornamos, não é a casa que já não está lá; nós é que nos transformamos.
Mas, então, como reencontrar os próprios caminhos e “voltar pra casa”, se já não somos os mesmos de antes?
Drummond descreveu que essa é a “dificílima perigosíssima viagem”: a do homem às suas próprias entranhas.
Talvez a solução esteja na história de Teseu, herói da mitologia grega, que teve a sorte de receber de Ariadne o fio que lhe permitiu se aventurar pelo labirinto do Minotauro, matar a fera e encontrar a saída.
Feliz de quem, ao retornar de uma experiência profunda, tem seu fio de Ariadne e sabe para onde voltar, reinventando a própria casa e a si mesmo. Uma tarefa difícil, mas não impossível. E sempre admirável.