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O ENGRAXATE DO PAPAI NOEL

Num dezembro distante, um menino franzino de nove anos, vestindo roupas puídas, rasgadas e encardidas, engraxava sapatos na praça central da cidade. Ele juntava dinheiro para comprar remédios.

Na véspera de Natal, o Papai Noel estava sentado numa poltrona dentro da casinha montada na praça, atendendo à fila quilométrica. O menino engraxate, cujo sonho era conversar com o bom velhinho, assumiu o fim da fila.

— Ei, moleque. Some daqui! Você está fedendo.

Empurrado, o menino caiu sobre a grama e rastejou com a caixa de engraxate até a sibipiruna mais próxima, de onde ficou espiando as pessoas muito bem vestidas na fila.

Num gesto de coragem, ele caminhou até a lateral da casinha do Papai Noel, sentou-se debaixo da janela e ficou ouvindo os pedidos. De vez em quando, arriscava uma espiadela.

— Papai Noel, eu quero um smartphone.
— Papai Noel, eu quero a coleção completa da Barbie.
— Papai Noel, eu quero uma bicicleta do Homem Aranha.

Somente quando terminaram os pedidos, o menino se levantou decidido a ir embora, mas deu de cara com o Papai Noel à janela.

— Será que ainda dá tempo de engraxar os meus sapatos?

Os olhos do menino brilharam. Engraxar os sapatos do Papai Noel iria torná-lo o mais famoso entre todos os outros engraxates.

O Papai Noel se sentou num dos bancos da praça, e o menino começou a remover a poeira e a sujeira das botas.

— Eu vi você espiando pela janela. Por que não entrou?
— Não me deixaram. Disseram que eu tava fedido.
— Tá nada! Agora me conta: qual é o seu pedido?
— Eu só queria um… abraço.

O Papai Noel abraçou o menino que chorou e contou que tinha dois irmãos menores. Contou também que o pai estava preso; por isso, ele engraxava sapatos para comprar os remédios da mãe.

Papai Noel, sem dizer nada, esperou o polimento dos calçados ficar pronto, tirou uma cédula graúda do bolso e deu ao menino.

— Agora vamos até a sua casa. Meu veículo está na outra rua. Vem comigo.

O menino ficou imaginando que passearia de trenó. Mas, em vez de trenó, o veículo era um automóvel seminovo.

Durante o trajeto, o Papai Noel revelou:

— Eu moro com a minha mãe. Todo ano ela capricha na ceia, e é muita comida só para duas pessoas. Neste ano, vai ser diferente: quero que você, sua mãe e seus irmãos celebrem o Natal conosco.

Proseando

Maurício Cavalheiro
Maurício Cavalheiro
Maurício Cavalheiro é um escritor e trovador brasileiro, natural de Pindamonhangaba, São Paulo. Ele é conhecido por suas obras na forma de trova e também por sua coluna "Proseando" no jornal Tribuna do Norte. Além disso, é membro da Academia Pindamonhangabense de Letras, da União Brasileira de Trovadores (UBT) e da Academia Brasileira de Sonetistas (ABRASSO).
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