Bartolomeu vivia ameaçado por uma dúzia de credores. Por isso, toda vez que saía de casa, precisava se disfarçar.
Certa vez, tosou o gato da vizinha para fazer um bigode e, usando cola de baixíssima aderência, juntou os pelos no buço. Na cabeça — um verdadeiro “aeroporto de mosquito” — colocou um chapelão de couro. Sobre o nariz, óculos escuros.
Pelo menos duas vezes na semana ele saía disfarçado para ir à casa lotérica, na esperança de que a sorte estivesse ao seu lado.
Mas, mais uma vez, ela passeava bem longe. Além de as dezenas escolhidas não serem premiadas, ainda foi descoberto pelos credores quando o bigode caiu e o vento lhe arrancou o chapéu.
Semana passada resolveu ser mais radical. Numa visita à avó, subtraiu um vestido de florezinhas com cheiro de naftalina que estava guardado numa cômoda. Subtraiu também um sutiã, um par de sapatos e uma bolsinha tiracolo. A velha não enxergava bem.
Em casa, encontrou uma peruca de cabelos brancos que usara num carnaval distante.
Passou batom, delineador e blush; encheu o sutiã com espuma; vestiu o traje; e teve de espremer os pés para caber nos sapatos.
Algo lhe dizia que aquela seria a última vez que se submeteria àquela humilhação.
Saiu de casa, mas antes conferiu se o bilhete estava dentro da bolsinha. Estava.
Com os pés berrando de dor, chegou à calçada da lotérica, onde encontrou alguns de seus credores. Não se apavorou. Sabia que seu disfarce estava perfeito.
Mas, de repente, um menino que vinha pedalando pela calçada chocou-se com ele — e o disfarce foi descoberto.
Foi agredido e deixado desacordado na calçada.
Quando acordou, já estava em casa. O irmão o resgatara.
— Meu irmão, você sabe quais foram as dezenas sorteadas da Mega-Sena? — perguntou, ainda sofrendo as dores.
— Sei sim: 02, 16, 25, 32, 41 e 42.
Ele arregalou os olhos e gritou:
— Ganhei! Ganhei! Ficarei livre daqueles credores sem paciência!
Ao se levantar, pegou a bolsinha, abriu-a, retirou o volante e… lembrou-se:
— Não deu tempo de fazer o jogo.









