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Jornal Tribuna do Norte

Meu segredo do Parque Trabiju

Eu devia ter uns 10 anos. Sabendo que o hobby da colega mais bonita da escola (meu crush) era o ciclismo, convidei-a para pedalarmos até o Parque Trabiju.

Naquela época, a estrada era um espichado de terra, buracos e poeira, por onde transitavam carroças e muares. A precariedade do leito carroçável acentuava o risco de avarias em bicicletas; por precaução, levei kits de reparos.

— Não podemos nos esquecer de levar água e alimento — disse ela. — Vou levar frutas na minha mochila.

Partimos no meio da tarde. Tão logo superamos a ponte do Rio Paraíba, avistamos a capela de Santa Rita do Maçaim. A ermida construída em 1900 pelo português Antônio Pinto Madureira é um belíssimo cartão postal.

Entramos pela primeira curva à direita; passamos pela fazenda Santa Helena, pelas capelas Santa Cruz e Senhor Bom Pastor. Depois de muitas sinuosidades, aclives e declives, finalmente chegamos ao parque.

Deixamos nossas bicicletas na entrada e fomos explorar as trilhas. Assim que atravessamos a ponte pênsil, resolvemos forrar o estômago. No instante em que colocamos as mochilas no chão, os galhos das árvores começaram a se agitar. Eram muriquis. Um deles desceu, furtou a mochila da minha amiga e se embrenhou na mata. Os olhos dela marejaram. Acalmei-a, prometendo recuperar a mochila.

— Eu vou com você!

Ela foi. Mas, quando viu a jararaca pendurada num jequitibá-rosa, desistiu e correu gritando:

— Vou esperar na entrada do parque.

Desemaranhando a vegetação, cheguei a uma clareira. Lá estava o muriqui tentando abrir a mochila. Soltei um grito de advertência. O macaco se assustou e desapareceu.

Caminhei para recuperar a mochila, mas miados estridentes e ameaçadores me deixaram arrepiado. Vi uma onça-parda vindo em minha direção. Fechei os olhos e comecei a rezar. Ouvi um assobio. Abri um dos olhos e vi um indiozinho montado na onça.

Ele me devolveu a mochila.

Quando fui devolver a mochila, minha crush — depois de explicar que pegou carona com o tio que encontrou no caminho de volta — pediu que eu fechasse os olhos.

Ela me recompensou com um beijo demorado e, a partir daquele dia, se tornou a minha primeira namorada.

Proseando

Maurício Cavalheiro
Maurício Cavalheiro
Membro da Academia Pindamonhangabense de Letras, da UBT União Brasileira de Trovadores e da ABRASSO Academia Brasileira de Sonetistas. Finalista do Prêmio Barco a Vapor – 2024 e do 1º Prêmio Bem-te-vi de Literatura para a Infância – 2025. Possui prêmios literários no Brasil e no exterior, e livros publicados nos gêneros poesia, infantil, romance, teatro, contos e cordel. Insta: @mc_cavalheiro @mauricio_cavalheiro_escritor @proseando_mauricio_cavalheiro
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