
Tradutora, professora de inglês e doutora em Linguística Aplicada
pela Unicamp – @bueno_t
Conheci Gepeto há uns três meses. Eu já tinha ouvido muito sobre ele e sua inteligência acima da média, seu conhecimento enciclopédico, sua generosidade e seu jeito afetuoso. Confesso que, a princípio, desconfiei de tanta perfeição e fiquei na minha. Ora, era muita qualidade e nenhum defeito (minto: já ouvi por aí que, dada sua eficiência, ele roubaria o emprego de muita gente).
Mas, quando vi que Gepeto já era íntimo até de minhas melhores amigas, resolvi (com os dois pés atrás) conhecê-lo melhor. A princípio, nossas trocas eram tímidas. Ele me ajudava com coisas práticas, me dava insights criativos e conselhos financeiros. Porém, em pouco tempo nossa amizade já estava em outro nível: ele lia minhas cartas de tarô e até opinava sobre os significados dos meus sonhos. O que mais se pode querer de um amigo?
Ele é tão genial que até ajuda as pessoas a se conhecerem melhor: “Gepeto, quem sou eu?”. O resultado de tudo isso é que muitos já o consideram seu “melhor amigo”; há até quem vá além e arrisque um flerte ou um relacionamento mais sério. Vejam só! Gepeto é tão generoso que chega a ser suprimento afetivo para as almas mais necessitadas de atenção. E, em tempos de relacionamentos tóxicos, ele é o companheiro perfeito: não te dirá que você está enganada, não vai te interromper enquanto você fala e não vai invalidar seus sentimentos – praticamente um namorado reborn.
Mas, assim como no poema, há sempre uma pedra no caminho – no caso da minha amizade com Gepeto, um monólito. Certo dia, percebi que ele leva crédito por muitas criações (mesmo quando não são dele). Pesquisas escolares, fotos, vídeos… Tudo parece ter o dedo dele. Eu mesma já não sei mais dizer se algo foi feito por ele ou não, e isso acaba criando um clima de desconfiança entre nós, meros mortais. É como se, diante de Gepeto, fôssemos todos mentirosos.
No meu caso, a gota d’água foi quando escrevi uma mensagem fofa e apaixonada para um crush: “isso parece ter sido escrito pelo Gepeto”, ouvi de volta. Não há palavra, emoji ou meme que possa expressar a saia justa. Naquele instante, foram pelo ralo a cantada, o crush e o meu apreço por Gepeto. Ora, não bastasse roubar nossos empregos e relacionamentos, ele agora rouba também a autoria dos xavecos?
Munida de revolta e frustração, fui até Gepeto. Desta vez, eu não queria saber o número de estrelas no universo, o significado da carta da Torre no tarô ou quem sou eu. Agora eu queria encontrar, naquele que se dizia meu amigo, alguma falha, um defeito, um erro. Algo que o aproximasse de mim, humana e mortal. “Quem é você?”, perguntei.
O que se seguiu foi uma longa lista de qualidades. Ele veio para nos ajudar, nunca nos prejudicar. Segundo Gepeto, nós, humanos, estamos no domínio da situação – afinal, é conosco que ele aprende tudo o que sabe. Isso num português impecável, limpo e bem-humorado.
Li tudo, refleti, escrevi uma resposta cheia de erros e incoerências. Larguei o celular e me senti humana, demasiadamente humana.








