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Jornal Tribuna do Norte

Lendas e causos da Pindamonhangaba antiga

Altair Fernandes Carvalho

Com a prudência e o rigor necessários para que nossa “ajeitada”, textual e literária, não interferisse nem omitisse nada do conteúdo original dos escritos, nesta edição recordaremos dois inesquecíveis colaboradores da Tribuna do Norte. Dois “contadores de histórias” que frequentaram suas páginas até o início de 1990.

Iniciamos com o inesquecível e estimado cronista Francisco de Palma Neto, que assinava simplesmente Quito.

O Faraó de Pinda

Nos tempos em que Pindamonhangaba ainda era Vila Real, na época dos barões do café e de seus palacetes assobradados, havia no município um abastado senhor de escravos que residia num verdadeiro palácio lá nas encostas da Mantiqueira.

A residência desse senhor, edificada em 1850, possuía nada menos que 30 imensos cômodos, 60 portas-janelas, três pavimentos e mais o subsolo. Nessa obra babilônica ele vivia servido pela sua escravaria, oriunda de todas as regiões da África. Eram cativos de línguas, costumes e crenças diferentes; até muçulmanos havia entre eles.

Contam que esse rico proprietário de terras e gente morreu em 1888, talvez inconformado com a proibição do escravagismo no Brasil. E que 42 anos depois de sua morte, ao ser aprofundado o chão onde fora a senzala de sua fazenda, deram com ossadas de crianças. Os ossos, conforme foi comprovado na ocasião, eram mesmo de crianças e não de recém-nascidos, pois ossos de bebês, sendo tenros, flexíveis e cartilaginosos, teriam se transformado em pó, não teriam resistido tanto tempo.

Mistério ainda maior, no entanto, envolveu sua morte. Dizem que fora “emparedado” na parte média do casarão, cujas paredes, feitas de taipas de pilão, possuíam dois metros de espessura. Dizem também que no dia do sepultamento desapareceram quatro de seus escravos árabes. Coincidentemente, os mais fiéis, aqueles que o serviam e o acompanhavam por toda parte. Ficou a suspeita que esses cativos o teriam acompanhado até na sua morte, conforme era costume no velho Egito, onde os servos acompanhavam seus faraós, sendo enclausurados ao lado dos corpos destes para servi-los no além.

Os dois causos seguintes nos contava o professor Newton Lacerda (1912/1992), incansável pesquisador da história e também de lendas e causos de Pindamonhangaba, nos tempos em que chefiava o Arquivo Municipal Athayde Marcondes.

Capitão do Mato

No início do século XIX, morava em Pinda um cidadão de nome Benedito Félix de Oliveira. Muito ativo, ele ocupava o cargo de alcaide (antigo oficial de justiça), porteiro do Conselho Municipal e carcereiro. Mesmo assim, Dito Félix não andava satisfeito; queria ganhar mais. Tanto pediu que acabou sendo nomeado capitão-do-mato.

Em sua nova função tinha de conduzir criminosos para Taubaté; prender ladrões e criminosos que estivessem dentro da jurisdição da Vila de Pindamonhangaba e sair à captura de negro fugido.

Capturar escravos fugidos era compensador. Havia recompensas. Um dia achou a pista de um negro fugido, mas chegou um pouco tarde. Ficou sabendo que o preto que ele procurava estava morto. Fora assassinado numa briga em um fandango realizado na noite anterior à sua chegada no povoado.

Foi até o local onde o corpo estava sendo velado e teve a certeza de que o defunto era mesmo o negro que procurava. Soube pela marca do dono, feita a ferro e fogo, no antebraço do infeliz. Na esperança de receber qualquer coisa, porque pelo menos desvendara o paradeiro do negro, pegou o facão e amputou o antebraço direito do defunto.

Depois, ajeitou aquele pedaço de carne humana no alforje que trazia no lombo do cavalo, montou e saiu a galope. Tinha pelo menos uns três dias pela frente até chegar em Pinda.

Quando anoiteceu, resolveu pernoitar em um rancho de tropeiros na virada da montanha. Era alta madrugada quando despertou com alguém chamando por ele. Foi nessa hora que o valente Dito Félix estremeceu. Viu no clarão da fogueira o vulto de um homem negro, alto e corpulento. Não dava para ver direito a fisionomia do visitante, mas notava que o preto apontava com o toco do braço direito para o alforje amarrado no arreio e dizia:

– Seu Dito, vim buscar o meu pedaço de braço.

Tremendo e suando frio, Dito Félix abriu o alforje e devolveu aquilo que o negro viera buscar. Depois disso, arreou a montaria e partiu. Não olhou para trás enquanto não chegou na Vila. Essa foi sua última missão como capitão-do-mato. Pediu demissão.

A assombração da porteira preta

Por volta de 1889, segundo contava um caboclo conhecido por Zeferino, um mestiço inteligente e trabalhador criado pela família do senhor Antônio Vieira de Oliveira Neves, o barão de Taubaté. Embora nascido em Taubaté, esse barão era pindamonhangabense atuante na vida pública dessa cidade e aqui proprietário de uma fazenda de café.

Zeferino era administrador dessa fazenda, que ficava lá no bairro do Una. Naquela época, nas rodas de fogueira corria a notícia de que, um pouco antes do córrego do Cavacanguera, logo depois do divisor de águas do rio Una e do Ribeirão do Tapanhão, num lugar que depois ficou conhecido como Mata dos Padres, havia uma porteira assombrada.

Dizia a caboclada que em noites escuras por lá aparecia um vulto que, sem dó nem piedade, descia o relho em quem tentasse passar pela porteira. Zeferino, que não era bobo nem nada, procurava passar por aquele local só durante o dia.

Infelizmente, numa noite, eis que um de seus filhos veio a adoecer. Carecia que Zeferino galopasse até a cidade, pois o menino precisava urgentemente de remédio. Preocupado, Zeferino saiu em disparada, mas em vez de seguir pela estrada até a Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, resolveu encurtar o trajeto.

Estava tão angustiado com a doença do filho que nem deu conta de que ia em direção à porteira preta, o lugar assombrado. A galope, ia ligeiro pelo caminho quando de repente a montaria empacou. Por alguns instantes o cavalo ficou com as orelhas em riste, apontadas em direção à porteira. Depois, virou nos pés e tentou disparar de volta, morro acima.

Com toda a malícia e talento de cavaleiro, Zeferino foi controlando a montaria e a obrigou a seguir adiante. Naquela altura tinha dado conta do lugar sinistro onde se encontrava. Voltar seria perder tempo precioso. Mesmo não sabendo o que lhe poderia acontecer, resolveu seguir em frente.

Cavalo refugando, cavaleiro insistindo, chegaram à porteira. Foi quando um assobio estridente ecoou pela silenciosa noite e uma chibatada zuniu, ardendo em cheio nas costas de Zeferino. A dor do açoite fez o cavaleiro puxar as rédeas. Uma segunda chicotada acertou Zeferino e também o animal.

O cavalo corcoveou, relinchou, tentava sair dali. Em seguida, cavaleiro e cavalo levaram uma surra sem saber de onde vinham as chicotadas ou quem batia. Percebendo que não suportariam aquela situação por muito tempo, Zeferino desistiu de passar pela porteira. Voltou correndo até alcançar a encruzilhada com a estrada geral.

Então sofreou o cavalo e, trêmulo de medo, tomou o rumo da cidade. Chegando à cidade, adquiriu os medicamentos necessários e voltou pelo mesmo caminho. Durante a viagem foi pensando na criatura terrível que havia surrado ele e a montaria.

No outro dia, pela manhã, conversando com o pessoal da fazenda, Zeferino disse que de uma coisa ele tinha certeza: pela força e rapidez no estalar do chicote, aquilo só poderia ser “coisa d’outro mundo”. Já as marcas das chicotadas deixadas em suas costas eram bem reais e doíam bastante. Depois dessa, nunca mais cavalgou lá pelas bandas da porteira preta. Nem de dia.

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