Para escrever bem, é preciso ter intimidade com a palavra escrita. Como é que se tem intimidade com a palavra escrita? Primeiro, lendo; depois, escrevendo. Não há outro modo. Quer escrever bem? Leia. Quer mesmo escrever bem? Escreva.
É a convivência diária que traz intimidade. O cotidiano tem esse poder de, a partir das miudezas, erigir grandezas! O que é cotidiano ensina – e, surpresa, aprende-se muito com o rotineiro. A repetição termina por inaugurar ineditismos – e o mistério vai sendo decifrado. Epifania é todo dia, embora a percepção venha com o tempo.
Com efeito, aprendizado demanda tempo, sempre foi assim. Escrita se aprende dia após dia, leitura após leitura, texto após texto. Daí a necessidade – óbvia – da permanência, da insistência, da perseverança. É preciso ler hoje. É preciso escrever hoje. Eu sei, o desafio é encontrar tempo – mas é bom encontrá-lo para não se perder tempo, para não se perder, já que saber escrever, saber expressar-se é uma necessidade imposta pela própria vida.
No poema “Procura da poesia”, Carlos Drummond de Andrade tem uma orientação poderosa: “Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. (…) Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. (…) Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave?”.
Alguém poderia perguntar: por que surdamente? O segredo é o olho no olho entre o autor e a palavra, um indagando o outro sobre intenções, sentidos, significações. Mas o olhar anda tão distraído nos dias que correm, não é mesmo?
E qual é a chave? Chave é um objeto trivial, rotineiro, sem o qual não se sai de casa, sem o qual não se entra em casa. Abrir, fechar, abrir de novo, a chave é, justamente, a intimidade, a cumplicidade espontânea dos que convivem, dos que partilham experiências corriqueiramente. A chave é abertura para o outro. Segredo também, mas, sobretudo, comunhão.
Percebe como ler é fundamental? Entende como a escrita precisa disso para nascer, para se constituir e acontecer? Alguém já disse que ler é aprender olhando – literalmente. Escrever é materializar em palavras o que se viu, percebeu, sentiu – dar, enfim, forma à abstração, erigir, como já foi dito, um edifício textual.
Essa ideia da construção textual lembra Vinicius de Moraes em “Poética II”, transcrito aqui na íntegra:
“Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.
E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.
Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)
Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
Entrai, irmãos meus!”.
A escrita é casa alicerçada na leitura. Se é casa, é abrigo cotidiano – novamente a ideia da repetição, da rotina, do convívio permanente. Da intimidade.
Para escrever bem, tenhamos intimidade com a palavra escrita. Convivamos com livros, ideias e escritos. Perseguindo epifanias, descobrindo formas de investigar o mistério da barulheira dos nossos dias até chegar ao âmago de tanto falatório, de tanto ruído: o silêncio revelador eternamente à espera das palavras capazes de decifrar sua natureza perene e efêmera entre o tudo e o nada, coisa que se desfaz para se refazer, o tempo inteiro.
Chiuuuu: tem gente lendo.
Chiuuuu: tem gente escrevendo.
Isso é tão necessário, tão humano, tão sagrado!
P.S.: Este texto é dedicado a todos os professores!