
Ele amava a esposa mais do que tudo na vida. Mais até mesmo do que os filhos (pois não os tinha). Mas, de tanto maltratar a sogra, a esposa deu-lhe um ultimato.
— Se maltratar mamãe mais uma vez, vou pedir o divórcio.
— O quê? Você sempre mete o pau na velha! Diz até que ela tá fazendo hora extra. Eu, pelo menos, a trato com respeito, com carinho, com amor…
— Ah, vá te catar! Eu posso até ter feito alguma reclamaçãozinha dela, mas você… pensa que eu não vejo? Você espera que eu esteja distraída e faz caretas para irritá-la. Outro dia você a chamou de bruxa bruaca pelancuda. Pensa que não ouvi?
— Eeeeeeeeeu? Jamais fiz isso. Eu amo a minha sogra. E posso provar.
— Pode mesmo? Vamos ver então. Vou chamar mamãe pra passar o fim de semana conosco. Leve-a para passear. O sonho dela é atravessar o lago num bote. Peça ao seu amigo para emprestar aquele que vocês usam para pescar.
— Atravessar o lago? Não pode ser outra coisa?
— Não, não pode! Se não quiser, pode arrumar suas malas e sumir da minha vida.
Ele coçou a cabeça.
— Tá bem. Você vai com a gente, né?
— NÃO! Quem tem que provar é você, não eu.
No final de semana a velha chegou; só não pulou de alegria quando soube que iria ao lago, porque a artrose não deixou. A filha havia preparado petiscos e sucos. Duas horas depois, sogrinha e genrinho passeavam de bote no lindo lago azul.
— Me leve à outra margem. Reme devagar que quero contemplar a natureza.
A vontade dele era nocautear a velha com os remos e empurrá-la no lago. Entretanto, pelo amor que tinha à esposa, não o fez.
Ao chegarem do outro lado do lago, a velha resmungou:
— Você é muito estúpido, igualzinho à minha filha. Eu disse pra me levar pra outra margem! E a outra margem fica do outro lado.
Ele remou até o entardecer. Quando voltaram, a velha estava um doce.
E a esposa? Ah, a esposa não estava. Deixou um bilhetinho:
“Adeus. Não me procure. Cuide da mamãe. Você e ela são farinhas do mesmo saco.”