“O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter”. Cláudio Abramo (1923-1987)
Passado o Dia do Jornalista, abril segue como um mês de reflexão sobre o papel da imprensa. E é nesse contexto que me vejo, como autor de Pindamonhangaba no Século XX, pensando na ligação — ao mesmo tempo estranha e profunda — entre minha obra e o jornalismo.
Deixo aqui uma pergunta simples, quase incômoda: o que sobra de uma cidade quando as pessoas que viveram suas histórias já não estão mais aqui?
A resposta é, ao mesmo tempo, singela e inquietante: sobra o que foi registrado — e, sobretudo, o que foi lembrado. É nesse espaço frágil, entre a memória e o esquecimento, que nasceu meu livro. Ele não foi escrito apenas para contar a história de Pindamonhangaba, mas para evitar que ela se perdesse no vazio do tempo.
Há cidades que existem no mapa. E há cidades que vivem dentro da gente. Este livro nasce desse segundo lugar — o da memória, do afeto, daquilo que o tempo não apaga por completo, mas insiste em desbotar. A verdadeira história não está apenas nos arquivos empoeirados; ela vive na voz de quem experimentou o cotidiano, no cheiro da rua de terra, no barulho do comércio antigo, nas conversas de fim de tarde, nos gestos mínimos que nunca viraram notícia — mas que sustentam a alma de uma cidade.
Talvez por isso a obra tenha se tornado um fenômeno editorial local, possivelmente o livro sobre Pindamonhangaba mais vendido de sua história. Mas o essencial não está nos números. Está no tipo de reconhecimento que alcançou. Quem lê não apenas conhece — se reconhece. Trata-se de um livro que democratiza a memória e nos lembra que cada pessoa é, à sua maneira, agente da história.
E é aqui que o jornalismo se revela em sua dimensão mais profunda.
Lidamos com o presente. Corremos atrás do fato, da urgência, do que acabou de acontecer. Mas, no fundo, estamos escrevendo o passado de amanhã. Aquilo que registramos — e, tão grave quanto, aquilo que deixamos de registrar — será a memória que permanecerá. Cada notícia, cada entrevista, cada fotografia legendada é um tijolo na construção da história futura. Preservar histórias, portanto, não é apenas um gesto de saudade. É um compromisso ético com o futuro.
Cláudio Abramo estava certo. O jornalismo exige inteligência para conectar fatos, interpretar o presente e discernir o que realmente importa. Mas exige, acima de tudo, caráter — porque, todos os dias, o jornalista decide o que merece ser lembrado. E essa decisão, muitas vezes tomada sob pressão, ajuda a definir o que uma cidade, um país, uma geração saberá sobre si mesma daqui a cinquenta anos.
Neste abril que já avança, fica o convite: não nos vejamos apenas como cronistas do presente. Vejamo-nos como autores do passado de amanhã.
Porque preservar a memória não é apenas olhar para trás com saudade. É garantir que, quando o futuro chegar — e ele sempre chega —, ainda saiba de onde veio, por quem foi construído e quais histórias jamais deveriam ser esquecidas.









