
Uma união de beleza, música, dança, ritmo, cores, brilho… E principalmente ALEGRIA. Eu só não sabia ainda que seria uma apaixonada por todas as formas de arte e expressão criativa, e que eu seria uma artista; afinal era muito cedo para saber disso… Anos setenta, eu devia ter uns dez ou onze anos, morávamos há uns cinquenta metros da porta de um Clube para Militares, onde civis também podiam frequentar. Logicamente que eu atormentava meus pais durante semanas antes do Carnaval, porque queria ir toda a noite assistir aos ensaios de blocos que aconteciam em nosso bairro. Esperava ansiosa pelas matinês, havia um tio militar, meus avós também gostavam muito de frequentar, enfim, toda a família participava, carnaval era um acontecimento!
Minha mãe, além de dona de casa, era exímia costureira e sem perder tempo, naquele ano pedi a ela que me fizesse uma fantasia de carnaval, seria a minha primeira, mas o dinheiro era sempre um problema lá em casa, ela me disse que só poderia gastar o equivalente a uns dez reais comparado com valores de hoje. Ainda assim eu me animei… Fui revirar o saco de retalhos dela e encontrei um pedaço grande de pano branco, porém não grande o suficiente. Idéia não me faltava, pois, naquele tempo eu assistia todos os dias aos filmes da “sessão da tarde” e geralmente eram musicais com sapateado magnífico de Fred Astaire e Ginger Rogers, muita coreografia, roupas bonitas, cartolas, ornamentos e etc. Mas voltando à vida real eu só tinha mesmo os dez reais, um saco de retalhos, minha criatividade e uma mãe muito, muito caprichosa, o que mais eu precisava? Ah sim, precisava pensar em uma fantasia que não usasse sapatos de maneira nenhuma, que não tivesse plumas ou paetês, e que não fosse de Eva. Estava difícil sim, mas não impossível.
Fomos então ao mercado municipal e compramos um metro de chita estampadinha de vermelho, o que já me custou metade do dinheiro, fomos para casa e com o pano branco que eu havia encontrado, resolvemos fazer uma fantasia de cigana, meio pobre de fato, mas caprichada com certeza, assim sendo estava prestes a ter minha primeira fantasia de carnaval. E olhe que ainda me restava um cinco reais para gastar… Então minha mãe me mandou de volta ao mercado para comprar o que o dinheiro desse em medalhinhas douradas, imitando moedas, típicas em roupas ciganas, trouxe muitas; foi o máximo! Minha mãe, ao mesmo tempo em que fazia coisas, me ensinava a fazer coisas, por isso me mandou costurar as medalhinhas na beirada da blusa de amarrar na frente; do lenço em pano branco e da saia em chita tão rodada que balançaria quando eu dançasse. Seria a Glória!
Abri minha caixa de bijuterias e separei toda sorte de pulseiras de argola, anéis de pedras coloridas que vinham sempre nos doces de Maria-mole e todas as correntes douradas que encontrei. Faltavam os brincos grandes que eu ainda não usava devido à pouca idade, então minha mãe costurou duas pulseiras de argolas no lenço imitando os brincos. Meus olhos brilhavam, parecia que eu sonhava, estava tudo perfeito. Ah, no primeiro dia da matinê… Comecei a me arrumar muito antes, tranquei-me no meu quarto e na falta de maquiagens apropriadas que eu não tinha, improvisei: – Saquei meu estojo de canetas hidrográficas tipo “silvapens”, e me maquiei… tenho quase certeza que fui eu quem inventou naquele dia (ou pelo menos idealizou), a maquiagem definitiva, ou quase tatuagem!
Não cansava de me olhar no espelho, estava me achando linda, coloquei as bijuterias todas e vesti a roupa que estava impecavelmente passada sobre a cama. Pisei no salão como pisasse em um palco de teatro mais sofisticado do mundo, quando a música começou, literalmente arrasei, dancei e pulei enquanto havia música, foram três dias de verdadeira folia. Como era de costume ao final do 3º e último dia, haveria a entrega de troféus premiando bloco mais animado, maiores foliões, fantasia luxo e originalidade, etc. A se notar que tratava-se de filhos de militares, imaginem o nível do concurso, sendo que estávamos em pleno militarismo no Brasil, e eu lá no meio embora meu pai fosse civil.
Quase perdi a voz quando entrou no salão uma menina, meio sem ritmo é verdade, mas com uma fantasia de Colombina preta e vermelha cuja saia se arrastava pelo chão, toda de babados, tules e flores nos cabelos, sem mais palavras: Maravilhosa! Confesso que experimentei um sentimento não muito nobre chamado “inveja”, e não me orgulho disso. Seja como for, não perdi meu entusiasmo, dancei e me diverti muito, aproveitei quanto pude até o último acorde da banda. Foi quando anunciaram as crianças que seriam julgadas para premiação. Meu coração estremeceu quando me chamaram para ir ao palco, pois, estaria concorrendo à melhor fantasia juntamente com outras, inclusive a deslumbrante Colombina. Foram sendo entregues os prêmios até que chegou nossa vez, a diretoria escolhia pessoas adultas das mesas para votarem em aberto, sendo cinco jurados para cada prêmio. A Colombina havia recebido dois votos e a Cigana (eu), um voto de alguém desconhecido, foi quando o mediador do concurso elegeu sem saber, justamente a mesa da minha família para dar os dois últimos votos, e ninguém mais, ninguém menos que meu Pai e minha Mãe.
Eu já tinha um voto, então fechei os olhos e pensei: Ganhei! Meu mundo parou. E o diálogo a seguir descreve o que ocorreu:
E o seu voto meu senhor, vai para quem?
Para a Cigana. (Respondeu sorrindo meu pai.)
Muito bem, então estamos empatados, dois votos para cada uma.
E o seu voto minha senhora, vai para qual fantasia?
(Fez-se um segundo de silêncio. Eu queria explodir de alegria, mas me contive, quando minha mãe respondeu sem tirar os olhos dos meus):
Meu voto é para a Colombina…
Meus parabéns. (Encerrou o mediador).
Muito aplaudida a menina segurou cuidadosamente o troféu, pois usava luvas até os cotovelos, foi tirada do palco pelos familiares em festa e eu de um salto estava de volta ao salão, ainda sem acreditar, e com as lágrimas penduradas quando minha mãe me pegou pela mão, e antes que eu dissesse algo, ela me disse:
Filha, você esqueceu-se de cumprimentar sua colega pela vitória. Enxugou minhas lágrimas antes mesmo que caíssem e levou-me pela mão, eu cumprimentei a Colombina e fomos embora pra casa em silêncio. O tipo de educação que recebi e meu imenso respeito por meus pais me impediram de dizer qualquer palavra. Inconsolável e inconformada eu chorei, chorei muito… E minha mãe deixou, até que a certa altura entrou no meu quarto e me disse:
Chore mesmo, pois o choro lava a alma e limpa a mágoa, mas saiba que a sua dor não chega aos pés da minha: Eu estava julgando a melhor fantasia e você tem que admitir que a dela era a mais bonita, mais rica. Você queria que eu cometesse uma injustiça? Mas se você fosse julgada como foliã minha filha, tenho certeza que ninguém naquele salão teria votado em outra criança, você receberia os cinco votos merecidos e indiscutíveis. Porque na vida a gente tem que conquistar as coisas com merecimento, e não esperar ganhá-las de mão beijada. Hoje você pode me odiar, mas só por hoje, amanhã já vai me dar razão.
Confesso que demorei mais de um dia para entender, e até hoje me pergunto como ela teve tanta coragem de ensinar o que era certo. Pois se eu tivesse ganho aquele troféu, e saísse dali feliz e sorrindo naquele dia, talvez hoje eu olhasse na estante da minha casa e sentisse vergonha, muita vergonha dele, que bom que ele NÃO ESTÁ dentre tantos troféus que conquistei depois de melhor fantasia em muitos outros carnavais que vieram (pois meu amor pelo carnaval nunca passou), e depois como melhor fantasia de casal, e mais tarde tantos outros que meus filhos ganharam com fantasias que eu mesma fiz para eles. Não me envergonho de nenhum deles, foram troféus de alegria e merecimento.
Baseada na frase: Quem ama, educa. Eu imagino o quanto minha mãe nos amou. Embora imaginário, o maior, melhor e mais bonito troféu que eu tenho na estante da minha vida, foi minha mãe quem me deu naquele dia, um troféu chamado: – JUSTIÇA.