Bem-vindo ao Jornal Tribuna do Norte   Clique para ouvir áudio Bem-vindo ao Jornal Tribuna do Norte

Jornal Tribuna do Norte

Educar também é respeitar, o desafio de combater a transfobia nas escolas públicas

Para Vanderleia de Souza Carvalho, diretora de uma escola pública estadual de Ensino Médio, dirigir uma escola vai muito além da gestão administrativa e pedagógica. É, sobretudo, assumir a responsabilidade de lidar com sujeitos em formação, com suas histórias, conflitos, fragilidades e identidades. Entre os muitos desafios contemporâneos que atravessam o espaço escolar, a temática da identidade de gênero e da diversidade sexual tem se mostrado uma das mais delicadas, sensíveis e urgentes.

No ano de 2024, a escola recebeu uma estudante transexual — uma menina trans — que vivenciava profundo sofrimento emocional não por quem ela é, mas pela não aceitação de sua identidade e orientação por parte da família. Especialmente a mãe, uma mulher evangélica profundamente ligada à sua fé, afirmava ter tido um filho homem e não uma filha, o que gerava conflitos intensos entre o ambiente familiar e a vivência da estudante.

Essa realidade colocou a escola, e a diretora enquanto gestora e mediadora, diante de um cenário complexo, que exigiu escuta atenta, sensibilidade e responsabilidade institucional. A estudante relatava grande incômodo ao utilizar o banheiro masculino, situação que afetava diretamente sua permanência, seu bem-estar emocional e seu processo de aprendizagem. Diante disso, foram buscadas alternativas possíveis dentro da realidade escolar, com o objetivo de garantir dignidade, segurança e respeito.

Entretanto, a família não autorizava que a estudante fosse reconhecida conforme sua identidade de gênero, exigindo que a escola utilizasse o nome de registro e a tratasse como menino. Esse impasse revelou, de forma muito concreta, os desafios que a escola enfrenta ao mediar direitos, afetos, crenças religiosas e legislações vigentes.

Como diretora, Vanderleia compreende que a escola não substitui a família, mas também não pode se omitir diante do sofrimento de um estudante. A escola é um espaço laico, educativo e de proteção. A Constituição Federal assegura a dignidade da pessoa humana como princípio fundamental, e o Estatuto da Criança e do Adolescente garante o direito à integridade física, psíquica e moral de crianças e adolescentes. No âmbito educacional, o Estado de São Paulo possui normativas que orientam o respeito ao nome social e o dever da escola em promover um ambiente seguro, livre de discriminação e violência.

Contudo, a aplicação dessas leis no cotidiano escolar exige mais do que o cumprimento de normas. Exige a mediação de conflitos reais, nos quais famílias, estudantes e a própria comunidade escolar carregam valores, crenças, medos e desconhecimentos distintos. Muitas famílias ainda não compreendem as questões relacionadas à identidade de gênero e à diversidade sexual. Muitos estudantes também não compreendem. E, frequentemente, a escola se torna o primeiro espaço onde esse tema se apresenta de forma concreta, exigindo diálogo, orientação e formação.

Nesse contexto, o papel da gestora não é o de impor verdades, mas o de promover o diálogo, orientar com base na legislação vigente, acolher o estudante e, ao mesmo tempo, respeitar os limites e o tempo das famílias, sem jamais permitir práticas que gerem exclusão, humilhação ou sofrimento. A questão do uso do banheiro, por exemplo, revelou-se um ponto sensível e desafiador, que demandou responsabilidade, criatividade e compromisso com a dignidade humana.

Lidar com estudantes transexuais é, para a escola, um exercício permanente de empatia, escuta e formação. Exige investimento em formação continuada dos profissionais da educação, orientação aos estudantes, diálogo constante com as famílias e articulação com a rede de proteção. Mais do que isso, exige compreender que esses jovens não representam um problema, mas revelam uma realidade que sempre existiu e que hoje pede visibilidade, respeito e cuidado.

Como diretora, Vanderleia segue aprendendo diariamente. Aprende que não há respostas prontas, que errar e corrigir faz parte do processo educativo e que educar, muitas vezes, significa sustentar o desconforto para que o respeito possa nascer.

A escola pública tem o dever de ser um espaço onde todos os estudantes possam existir com dignidade. Não se trata de ideologia, mas de humanidade. Não se trata de confrontar crenças, mas de proteger vidas. E esse continuará sendo um dos maiores — e mais importantes — desafios da gestão escolar nos tempos atuais.

Relato da diretora Vanderleia de Souza Carvalho
Diretora Escolar

Tributeens

Redação
Redação
loader-image
Pindamonhangaba, BR
05:47, am, fevereiro 18, 2026
21°C
céu limpo
68 %
Wind Gust: 10 Km/h
Clouds: 3%
Sunrise: 06:38
Sunset: 17:38

Notícias relacionadas

Edital 10407

Edital 10407

13 de fevereiro de 2026
Edição 10407

Edição 10407

13 de fevereiro de 2026

Categorias

Redes Sociais

Clique para ouvir áudio