Era uma linda tarde de verão no hemisfério sul. Não via a hora de entrar na famosa sorveteria da cidade, saborear e me refrescar com o sorvete da moda.
Entramos na sorveteria, pedi o meu sorvete e saímos para a pracinha em frente a sorveteria. Queria registrar aquele momento.
A imagem do sorvete começou a se modificar, era uma imagem simples: um sorvete derretendo sob um sol de 39 grais. Ainda assim havia uma beleza naquele sorvete.
O sorvete que antes posava orgulhoso para a fotografia – bolas definidas, cores vivas, promessa de refrescância – naquele momento cedia sem resistência ao calor.
Escorria pelas laterais como alguém que entende que não adiante nada lutar contra o calor.
Trinta e nove graus de temperatura, não é fácil. O ar pesa, o tempo parece suas e os pensamentos caminham vagarosamente.
O sorvete antes desejado, aliparado virou um retrato exato da tarde mais quente do ano até aquele dia, rendido, cansado e derretido, diante dos meus olhos.
A imagem do sorvete derretido lembra que certas coisas, acontecimentos não foram feitos para durar muito. Foram feitas para existir intensamente por alguns minutos ou até segundos e depois desaparecer, ficando só na memória.
Como o frescor de um fim de tarde, na praia ou no campo, como a infância, ou um amor perdido de repente.
A imagem do sorvete derretido nos diz que a gente talvez esteja derretendo um pouco, aprendendo, no calor excessivo dos dias, a aceitar nossas próprias formas provisórias…
E a imagem, silenciosa, nos diz que talvez a gente também esteja derretendo um pouco — aprendendo, no calor excessivo dos dias, a aceitar nossas próprias formas provisórias.








