Um homem de bigode e bermuda estava saindo da casa lotérica quando o conversível preto estacionou do outro lado da rua. O piloto era um homem de terno e gravata que, ao descer do veículo, atravessou a rua apressadamente.
— E aí, amigão. Quanto tempo!
O de bigode olhou ao redor, mas não encontrou ninguém.
— É comigo?
— Não, não, é. É com o seu umbigo — gracejou o engravatado. — Você não está se lembrando de mim?
— Claro que estou — mentiu.
Ficou esperando pela pergunta constrangedora: “Então, diz o meu nome”. Mas, em vez disso, o engravatado apenas disse:
— Você não mudou quase nada. Continua com o mesmo magnetismo; mais até, pois o bigode e os cabelos grisalhos valorizaram muito o seu rosto grego.
Rosto grego? Sentiu vontade de rir, mas se conteve.
— Vamos tomar uma cerveja? É por minha conta.
O convite era irrecusável, porque, naquele momento, não havia outra maneira de esfriar o sol daquele dia tórrido.
A pretensa conversa não passou de um monólogo. O engravatado tagarelava sem perder o fôlego. Entre tantos assuntos, contou que se divorciara havia cinco anos.
— Não aguentei mais viver com a sua prima. Quem me mandou não ouvir vocês? Você e a sua sábia mãe Adelaide sempre me alertavam: Genoveva é uma mulher cruel, ambiciosa, prepotente… Ah! Como fui tolo!
Depois da oitava cerveja, o engravatado tirou um punhado de cédulas de cem da carteira.
— Pensou que havia me esquecido daquele dinheiro que você me emprestou há dez anos? Esqueci não. Calculei juros e correção. Pode conferir.
O homem de bigode abriu a boca para dizer alguma coisa. Mas, como o engravatado não parava de falar, limitou-se a guardar o dinheiro no bolso da bermuda.
Finalmente, o engravatado pagou a conta e se despediu.
— Foi muito bom reencontrá-lo, Zé Paulo. Na próxima sexta-feira a gente toma outras neste mesmo bar, neste mesmo horário. Combinado?
O engravatado foi embora.
O de bigode não tinha nenhuma prima chamada Genoveva, e Adelaide não era o nome da mãe dele. Zé Paulo? Quem era Zé Paulo?









