Diariamente, um rouxinol longevo e uma jovem canarinha se encontravam sobre a janela do quarto 307.
— Algum amigo veio visitá-lo hoje? – perguntou o rouxinol que chegara atrasado.
— Até agora, nenhum. Se não fosse o revezamento entre a cuidadora, o filho e a mulher, ele estaria sozinho.
— Isso é inaceitável! Ele não merece ausências!
Um breve silêncio pairou no ambiente.
— Por falar em ausência, por que demoraste tanto?
— Fui ao quarto 103. A paciente estava muito agitada. Fiquei gorjeando preces até ela se acalmar. Mas lá, pelo menos, sempre tem visita.
Enquanto conversavam, o paciente dormiu e a mulher saiu para caminhar pelo corredor. A canarinha aproveitou, abriu as asas, voou e pousou sobre as mãos do paciente. O rouxinol fez o mesmo.
— Quanto será que vale uma pessoa? – perguntou a canarinha com os olhinhos mirados no rosto encarquilhado do paciente.
— Eu não sei. Tu achas que vale alguma coisa?
— Tem que valer, principalmente, quem só fez e faz o bem. E o valor deveria ser a soma da honradez, empatia, altruísmo, simplicidade e humildade.
— Ah, Canarinha, como tu és ingênua. Para muitas pessoas esses valores não significam mais nada.
A passarinha piou tristezas.
— Não fique assim. Um dia, quem sabe, estes ausentes provarão do mesmo abandono.
— Será?
— Sinceramente, não sei. A única certeza que eu tenho é a de que não arredariam pé do leito do enfermo, se lhes fossem oferecidas, por exemplo, uma moeda de ouro.
Outro breve silêncio pairou no ambiente.
— Quer dizer que no quarto 103 estão distribuindo moedas de ouro? – indagou a canarinha.
O rouxinol balançou a cabecinha e disse:
— Não, não estão. É que lá as visitas são concebidas pelo amor, respeito e gratidão.









