As pessoas sempre se surpreendem quando descobrem que eu gosto de samba. Talvez porque eu seja mais quieta, mais observadora, dessas que preferem os bastidores ao centro da roda. Eu, por outro lado, sempre me surpreendo com quem não gosta. Para mim, não gostar de samba é quase como não gostar de pão francês.
O samba vem antes de mim. Eu nasci depois do auge dessa história. Não vivi aquele Carnaval de Pindamonhangaba em que os blocos e escolas de samba tomavam a cidade e chamavam a atenção de toda a região, mas cresci ouvindo relatos que misturam memória e saudade, principalmente dos meus pais, que foram jovens foliões.
Nos anos 1970, quando o Carnaval de Pindamonhangaba vivia seus dias mais vibrantes, minha mãe desfilava pela USPP (Unidos Sambamos por Pindamonhangaba) e meu pai era do Charles Anjo 45. Naquele tempo, as duas agremiações eram grandes rivais, dessas rivalidades sérias na avenida, mas que hoje são apenas lembranças felizes e amizade.
Pelo que já ouvi incontáveis vezes, a família do meu pai era muito dedicada ao Carnaval. Meu avô, meu pai, meus tios e tias, todos envolvidos na construção da festa: montagem de carro alegórico, fantasias espalhadas pela casa, ensaios, reuniões e eventos para arrecadar verba para o desfile, tudo levado muito a sério.
Com o namoro dos meus pais, minha mãe veio como reforço para o Charles. Assim eu, ainda no projeto ou na barriga, já devia sentir os acordes do samba. E ainda hoje, o pé começa a bater sozinho, o ombro acompanha. O samba não pede licença. Ele simplesmente acontece.
Agora o Carnaval está chegando outra vez, trazendo essa sensação boa de pertencer a algo maior do que a gente, mesmo só tendo herdado as histórias. Talvez esteja no sangue, talvez seja somente por ser brasileira. Porque algumas coisas simplesmente sempre foram e sempre serão Carnaval.









