Sala dos professores é ambiente fértil, hilário, controverso. Ali, onde um cafezinho pode salvar o dia, há todo tipo de conversa, expectativa, revolta e alegria. Em meio a tudo isso, acreditem, a ternura brinca, discreta como ela só, animadora em sua teimosa resistência, lembrando-nos, ó salvadora lembrança, que a educação é realmente feita de amor. Nestes tempos tão desafiadores de plataformização do ensino e apatia geral, a sala dos professores é um lugar revigorante!
Há alguns dias, presenciei, numa sala dessas, conversas que muito têm a ver com essa ideia. De um lado, o professor de Matemática explicava, animadamente, caminhos “simples” para o aluno entender logaritmo; de outro, a professora de Inglês, na mesma toada, enriquecia o raciocínio matemático do colega com comentários que iam muito além dos conhecimentos dela sobre “verbo to be” (numa divertida alusão, que ela mesma fez, ao pensamento reducionista sobre sua disciplina).
Noutra ponta, o professor de Biologia falava dos perigos do excesso de açúcar na dieta e também dos danos representados pela falta dessa fonte de energia para o organismo. Já este professor, fascinado com a vitalidade de Gilberto Gil em sua turnê de despedida (evocada por outra professora), divagava sobre a força energizadora da música para o ser humano.
Claro que ainda houve tempo para outras pautas: a chegada do novo técnico do Corinthians, o saudável contato diário com a natureza, os almoços de domingo em família, o desafio de instigar o interesse dos alunos para um conteúdo que por si só já deveria despertar atenção…
Enfim, entre um cafezinho e outro, a sala dos professores abriga nosso cansaço, nossa identidade, nosso riso, funcionando como uma (breve) pausa restauradora no meio de nossa rotina de trabalho. Mas o que mais me admira é a certeza – evidenciada nesse lugar – de que cada professor ama a disciplina que escolheu lecionar – ou que o escolheu como seu porta-voz. Sim, amamos o que ensinamos, o conteúdo que nos fisgou lá no começo, a parte que nos coube nessa nobre missão de educar.
Falamos do que sabemos com a naturalidade de quem conversa entre amigos num café, num bar, na varanda de casa. E falamos com paixão, afinal, amamos o conhecimento com o qual “nos casamos” um belo dia; aliás, desde esse dia, é um novo aprendizado a cada aula, graças às contribuições do tempo, da maturidade, das novas descobertas – e da ajuda valiosa do olhar, da voz, da presença de nossos alunos.
Pronto, eles, nossos alunos mais que amados, são a fonte e a foz deste texto: o que lhes falta para que também se encantem com o conhecimento que trazemos pulsante, florido e frutificado no peito? Não basta a luz nos olhos? Não basta a fala entusiasmada? Nem o esclarecimento de dúvidas e a curadoria dos caminhos? Nem os horizontes descortinados? Os medos diluídos? As belezas reveladas? O presente ressignificado e os futuros fecundados?
Ah, acho que a ternura, que vive a brincar na sala dos professores, precisa aparecer mais vezes nas salas de aula! Não é uma boa ideia? Que ela – peralta, corajosa, pura e perspicaz feito uma criança – desplataformize o cotidiano, renovando nossa esperança e nosso fazer pedagógico, salvando nossos dias (como o cafezinho da Dona Marina, o anjo que cuida da gente aqui no colégio)!









