Fui me aproximando e aos poucos, observando as marcas do tempo e as intervenções estruturais cirúrgicas a que a histórica edificação foi submetida para a sua sustentação.
Não resisti, burlei a (precária) segurança, pedi a um turista alemão que tirasse uma foto com a minha máquina, fui muito rápido, subi no primeiro degrau de acesso ao Partenon, fiz pose e ali ficou registrado um capítulo fundamental da minha existência.
Contemplei e fui contemplado por 3.500 anos da história da civilização. Essas imagens e a história que contarei aos meus filhos e netos fazem parte do meu legado.
Não percebi o passar das horas, não senti fome nem sede. Estava em estado de graça.
De repente, chamou a minha atenção um pequeno pelotão de soldados com uniformes de gala carregando a bandeira grega dobrada. Tinham acabado de fazer o descerramento da bandeira que ficou hasteada todo o dia. Era o sinal, hora de voltar, logo depois o parque seria fechado.
Iniciei a descida cuidadosa. Os caminhos eram todos de pedra…
“No meio do caminho, tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho… relembrei Drummond sem pensar na distância entre Atenas e Itabirito.
Sentei-me numa delas, olhei para trás e tive a mais linda visão: o sítio da Acrópole.
Havia um pequeno grupo de moças perto de mim, turistas italianas, pedi a uma delas que tirasse uma foto minha incluindo todo aquele cenário. Ela acedeu com simpatia e sacramentou o instante!
Olhei o relógio, 9 horas da noite, o sol começava a se por…
O colorido do céu mais parecia uma escala Pantone; brisas vindas do Mar Egeu traziam o perfume leve e adocicado das oliveiras que estavam no caminho…
Do alto avistei o Teatro de Dionísio – Baco, uma relíquia onde foram encenadas obras dos grandes autores trágicos como Ésquilo, Sófocles, Eurípides, mas também cômicos como Aristófanes!
Era uma sinfonia da natureza, pairava no ar toda a aura civilizatória grega… continuei a minha descida em direção a saída do parque quando, de repente, ouço alguns instrumentos de cordas fazendo uma última afinação.
Do alto avistei o Odeão de Herodes Ático, um anfiteatro cavado na terra e construído em mármore, que talvez pudesse abrigar até cinco mil espectadores, mas que naquele exato instante, estava vazio, somente no seu palco estavam os músicos de uma grande orquestra.
Todos a postos, aguardavam a entrada do maestro… Soube que era uma gravação para a televisão grega.
Para melhor apreciar o momento, sentei-me numa enorme pedra imaginando quantos já teriam feito o mesmo gesto desde a Antiguidade.
Aos primeiros acordes da orquestra percebi que estava começando o quarto movimento da Nona Sinfonia de Beethoven, “Ode a Alegria”!
Era a consagração do Humano, do Divino, da existência. Eu estava ali, naquele instante, um átimo da minha vida, assentado no princípio da Era Moderna, sendo contemplado pela História da Civilização, em perfeito êxtase, numa simbiose perfeita com o Criador.
Tomado por profunda emoção, chorei, num misto de imensa alegria e surpresa e me senti verdadeiramente a Criatura!
Eram 22 horas e o Sol estava quase se pondo…
Saí do parque, olhei para trás e senti que eu era também parte daquela História.








