Quando li “Em Busca do Tempo Perdido”, a obra prima do famoso escritor Marcel Proust, logo me chamou a atenção a cena descrita no capítulo “No Caminho de Swann”. A cena das madeleines (um bolinho doce), nela Proust mostra como um sabor aciona a “memória involuntária”, fazendo o narrador da história reviver intensamente sua infância. Ele não sábia o que estava criando quando mergulhou uma madeleine no chá e deu início a uma das mais famosas jornadas da literatura.
Eu andava pela rua em uma tarde de domingo, dessas em que o tempo parece ir bem devagar, ao passar em frente a uma padaria, um cheiro de manteiga dourada e baunilha anunciada que algo tinha saído do forno.
E não deu outra, ao entrar na padaria me deparei coma as pequenas “conchas douradas” que repousavam na bandeja. Eram as madeleines!
Imediatamente me veio à mente a casa de minha avó, onde as madeleines sempre vinham acompanhadas de histórias. Minha avó tinha um jeito de contar que fazia a gente acreditar que cada bolinho daqueles tinha uma origem mágica.
Ela dizia: “Esta aqui foi feita para uma linda princesinha que perdeu o sapato em um baile…”
Naquela época eu não sabia que era Proust, mas entendia que havia lago especial naqueles bolinhos doces.
Entrei na padaria, sentei-me em uma mesa de canto, pedi um chá e uma madeleine. Dei a primeira mordida, não era o gosto, embora fosse delicioso, era algo mais sutil, sublime, como uma vibração, um eco. Foi como abrir uma gaveta e esquecida e encontrar uma fotografia já amarelada e desbotada pelo tempo, que nem você sabia que guardava.
Pensei, a vida é como uma coleção de madeleines esperando para serem reencontradas. Pequenos pedaços de algo maior, acomodados em cheiros, sons e sabores.
Tudo o que nós necessitamos é um minuto de distração, para que a magia aconteça.
Enquanto terminava de saborear a minha madeleine, percebi que, mais do que um bolinho doce, as madeleines eram um lembrete.
Um lembrete de que o passado jamais estará perdido, mas estará lá esperando, silencioso pra ser redescoberto…








