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Angústia e existência

José Valdez é médico, mestre e doutor pela USP, professor universitário, Magister ad Honorem da Universidade de Bolonha, e Professor Visitante das Universidades de Bonn, Munique, Colônia e Berlim (Alemanha). Professor Convidado da Universidade de Paris V (Sorbonne)

A angústia, no senso comum, nos remete à noção de alguém com algum problema de ordem sentimental, sofrendo, por exemplo com a perda de um parente ou amigo, e até mesmo com desafios impostos pela vida levando-o a encarar a existência como algo penoso, desprovido de significado.

No campo da Filosofia, estudada como angústia subjetiva (não trataremos aqui da angústia objetiva), vamos compreender que ela é parte do existente, anda com o indivíduo, compõe a interioridade da humanidade. Nesse momento, o ser encara as possibilidades do desafio com todas as suas consequências. Por ser inerente à existência humana, passa por modos ou estádios existenciais tais como: o estético, com a possibilidade de escolher o carnal desejo; o ético com a possibilidade de escolher a sua responsabilidade ante as leis da sociedade e o religioso com a possibilidade de vivenciar ou não a sua fé. Portanto, nesse processo de “tornar-se si mesmo”, a angústia assume uma importância na construção de uma existência autêntica e singular.

Entende-se, dessa maneira, que esse é um processo de escolha, uma possibilidade de liberdade. E, é o que vamos apreciar nos ensinamentos do Filósofo Dinamarquês Soren Aabyen Kierkegaard (1813-1885), também Poeta, Crítico Social, considerado o primeiro Filósofo Existencialista, cuja obra foi influenciada pelos Filósofos Hegel, Schopenhauer e Kant, para quem, quando o ser humano se angustia ante suas escolhas, ele vivencia a sua liberdade de uma maneira aguçada, franca, verdadeira. Portanto, torna-se essencial entender e compreender a angústia diferentemente do que o vulgo conhece e nos oferece: medo, temor e sofrimento. Ela se baseia na possibilidade do indivíduo “Ser capaz de”. Para Kierkegaard, a expressão “Ser capaz de” significa a constante vivência de ser livre, trazendo-nos o Filósofo, em consonância com esta concepção, o exemplo da criação de Adão e Eva no seu ato no paraíso, para ilustrar como a concepção de deliberar atesta que o “pecar” faz parte da liberdade humana.

Quando lemos a sua monumental obra “O Conceito de Angústia” (1844), passamos a compreender a relação pecado e angústia em outra perspectiva. Na realidade, na sua obra, ele propõe que o indivíduo se volte para si mesmo a cada passo da existência e obtenha o conhecimento de si próprio. É importante observar que o Filósofo utiliza um problema dogmático (o pecado original, digamos assim) para compreender o caminho da liberdade do indivíduo e, com base nele, relacionar a liberdade com angústia. Não é disso que falam também o Filósofo Alemão Martin Heidegger (“Angústia presente no existencial do ser representa abertura, determinação, a liberdade de se evadir do dia a dia e ter a condição de assumir o seu ser”), o Filósofo Francês Sartre (para quem esse acontecimento existencial se desvela quando o indivíduo está frente a frente de uma escolha ditada pela sua liberdade, e que é algo que pode conduzir modificações para a sua vida)?

Diante do exposto, vamos entender que sem a angústia, o existente (Ser que “está-aí – no mundo” como bem pontua Heidegger), não faz uma reflexão sobre a sua própria escolha, mas vive na inconsciência de que o mundo externo se revela nele, e, esse fenômeno (Angústia) o direciona à apropriação de si, pois, só nesse processo o indivíduo vai se relacionar com ele mesmo, com o outro e com Deus, e à concretização de sua singularidade.

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