
Altair Fernandes
Com o título “Abençoada Riqueza”, o jornal Tribuna do Norte assim registrou, em sua edição de 9 de julho de 1882, a seguinte nota:
“No dia do mês p.p. faleceu em Londres, deixando testamento, dona M. C. Pereira de Carvalho, condessa do Rio Novo, cujo nome há de ser lembrado por todos aqueles que sabem apreciar o verdadeiro bem.
Libertou 400 escravos e deixou-lhes uma grande fazenda, com seus cafezais, benfeitorias e terras incultas, com cujo rendimento poderão viver independentemente.
Ordenou que se criasse ali duas escolas, onde os filhos de libertos aprenderiam a ler e escrever.
Deixou 100 apólices, de 1:000$000 cada uma, à Casa de Misericórdia da Paraíba do Sul.
Deixou a São João Del Rey o produto de todas as suas joias, das condecorações de seu finado marido e da prata que existia na fazenda, que devem ser vendidas.
Além dessas, fez outras muitas disposições pias, que hão de recordar sempre, cercado de gratidão, o nome da Viscondessa do Rio Novo, verdadeira sacerdotisa da caridade.”
Fomos às pesquisas com o intuito de saber sobre o significado das iniciais M. C. do nome da Condessa do Rio Novo, pois era prática comum aos jornais da época abreviar nomes próprios.
E a Wikipédia nos revelou tratar-se de Mariana Claudina Barroso Pereira de Carvalho, nascida em Três Rios, no Rio de Janeiro, em 1816, e falecida em Londres, na Inglaterra, no dia 5 de junho de 1882. Fora rica fazendeira e o título de condessa recebera quando enviuvara-se de José Antônio Barroso de Carvalho, primeiro barão e visconde do Rio Novo. Era filha de Antonio Barroso Pereira Filho e de Claudina Venância de Jesus.
Sobre a causa da morte da condessa
Nossa pesquisa revelou que a condessa sofria com a descoberta de um tumor no ovário. Por conta disso, em 1882, partiu para a Inglaterra para fazer tratamento. Acompanharam-na na viagem uma escrava e o médico Randolpho Penna, que era casado com uma sua sobrinha.
Em Londres foi atendida pelo médico Thomas Spencer Wells, obstetra e pioneiro em cirurgias abdominais. Um procedimento cirúrgico foi marcado para o dia 5 de junho. Segundo cartas encontradas no Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores), Mariana Claudina morreu às 18 horas desse mesmo dia 5, por não ter conseguido se recuperar da cirurgia.
Abolicionista
Ainda segundo o site acima mencionado, Maria Claudina Barroso Pereira de Carvalho fora pessoa muito querida nos municípios de Paraíba do Sul e de Três Rios, no Rio de Janeiro.
Conforme o jornal Tribuna do Norte informara, com sua morte, por vontade testamentária, foram alforriados seus 400 escravos, seis anos antes da Lei Áurea, além de providenciada a doação de seus bens e terras.
Considerada abolicionista e benemérita notável, sua morte possibilitou, conforme era sua vontade, a criação, em sua fazenda denominada Cantagalo, em Paraíba do Sul, da Colônia Nossa Senhora da Piedade, garantindo a distribuição de lotes e terras aos seus libertos.
Outras obras também são a ela atribuídas: construção de duas escolas para os filhos de seus escravos e demais crianças desfavorecidas; criação da primeira reserva ecológica da região do distrito de Bemposta, em Três Rios, área em que proibiu a instalação de casas de comércio e indústrias.
Ainda por sua vontade deixada em testamento, foram construídos em Paraíba do Sul o Hospital Nossa Senhora da Piedade e a Casa de Caridade, sendo essa com a missão de trabalhar na educação de meninos e meninas desamparados.
Registra ainda o site Wikipédia que, no ano de 1884, em Ouro Preto, então capital da província de Minas Gerais, em sua homenagem foi fundada a Sociedade de Libertos Condessa do Rio Novo.
Para homenageá-la, conforme registra o site Wikipédia, em setembro de 1882, o Club de Libertos Contra a Escravidão, com sede em Niterói, encomendou um retrato pintado em homenagem ao grande feito abolicionista da Condessa e o entregou em doação à Câmara Municipal da Corte, no Rio de Janeiro. A pintura esteve ali disposta por muitos anos, sendo a única mulher dentre os homenageados da Câmara a ter seu retrato exposto.
Sepultamento envolvido em mistério
Um dos desejos de Maria Claudina, a Condessa do Rio Novo, o de ser sepultada em sua terra natal ao lado de seus pais e do marido, que também era seu primo em primeiro grau, talvez não tenha sido cumprido. Assunto que o leitor poderá apreciar em diferentes sites, consultando o Google sobre o tema Mariana Claudina Barroso Pereira de Carvalho.
Segundo o site Revista Vale do Café, “existem muitas histórias mal-contadas e controvérsias” referentes à vida e morte da condessa. A revista, após contato com pesquisadores, genealogistas e bons entendedores da história de Três Rios e da Condessa do Rio Novo, revela que essa trama é cercada de muitos mistérios.
Acompanhando outros sites que divulgam o assunto, a revista menciona o fato de, na segunda metade da década de 2010, a pesquisadora Cinara Jorge haver apontado para a possibilidade de os restos mortais da condessa terem sido sepultados nas catacumbas de um cemitério na capital britânica. A escritora teria chegado a tal conclusão quando colhia informações para seu livro “Pioneiros dos Três Rios – A Condessa do Rio Novo e sua Gente”.








