Ao longo da História Humana, alguns estudiosos têm voltado a sua atenção para o conceito e a representatividade do nada, palavra que na nossa língua ora é um advérbio de quantidade (“nada” x “muito”), ora é um pronome indefinido (“Nada foi encontrado”), a depender do contexto, para expressar a ausência de algo. Entretanto, esse conceito possui uma ideia mais abrangente, uma dimensão filosófica que excede a questão da quantidade.
Relembro o pensamento do Judaísmo e do Cristianismo: “Deus criou o mundo do nada”, significando dizer que antes desse ato de Deus, o criar, nada existia.
A partir de um raciocínio lógico, os filósofos da Grécia Antiga consideravam, em suma, que o nada é a negação do ser. Parmênides (530–460 a.C.), autor da célebre frase “O Ser é, e o Não-Ser não é”, nos legou a noção de que o nada não pode ser escrito nem pensado, pelo simples fato de que pensar sobre algo é cogitar em algum ser.
Outro filósofo grego, Demócrito (460–371 a.C.), que descreveu a teoria atômica já naquela época, asseverava que é impossível o não-ser, uma vez que o ser é pleno, enquanto o segundo é vazio. Dessa maneira, observamos que esse desafiador conceito, que mostra a capacidade humana de questionar a existência e o ser, tem se revelado um instigante e apaixonante tema de estudo.
Conquanto a ciência, por vezes, relacione o nada ao vácuo, que contém campos quânticos, a filosofia aprofunda a ideia do nada absoluto. Quem não conhece a famosa frase de Sócrates: “Só eu sei que nada sei”, a qual utiliza o nada para colocar em destaque a importância da consciência da própria ignorância como base para a busca do conhecimento.
Na filosofia existencialista, o nada é o fundamento da condição humana, expressa como angústia ante a morte, da liberdade absoluta e da distância em relação ao ser, fato esse que denota aquilo que se opõe, contradiz, transcende ou se afasta do ser. Portanto, o nada é algo representado que estabelece uma relação entre seu símbolo linguístico, a palavra, e a noção que se tem da não existência de alguma coisa.
Os estudos sobre o assunto em pauta foram objeto de reflexão de grandes filósofos, entre eles os alemães Immanuel Kant (1724–1804), autor de “Crítica da Razão Pura”, Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1830), que escreveu a obra “Ciência da Lógica”, Friedrich Nietzsche, autor de “Assim Falou Zaratustra” e da frase “Gott ist tot” (“Deus está morto”), que significa o declínio da moralidade cristã e dos valores absolutos, Martin Heidegger (1899–1976), autor de “Ser e Tempo”, e o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905–1980), autor de “O Ser e o Nada”.
Nessa breve abordagem, consideraremos os dois últimos. Heidegger, na sua obra “O que é Metafísica”, trabalhou o nada em articulação com o ser, ao interrogar: “Por que existe o ser e não o nada?”. Para ele, não basta pensar no nada como a negação de um ser, visto que ele seria definido pelo que exatamente constitui o seu oposto. Nada e ser pertencem um ao outro e são reciprocamente dependentes.
Somente pelo nada o ser se manifesta, se mostra, uma vez que é o primeiro, o nada, que produz em nós a angústia, o profundo sentido de pavor, que, para esse grande filósofo, é um dos componentes mais importantes da nossa natureza e realidade.
Por outro lado, é fundamental considerarmos o pensamento do filósofo francês Jean-Paul Sartre ao apreciarmos o seu comentado e elogiado livro “O Ser e o Nada”, cujas ideias foram influenciadas por Heidegger. A obra nos explica que existem duas maneiras de exercer o ser: a existência bruta, como se mostra, como qualquer ser vivo (“être en soi”), e a consciência (“être pour soi”).
Essa consciência seria o tão propalado nada, uma vez que, para ele, a consciência não pode ser objeto da própria consciência. Não seria esse nada um estado de espírito na concepção budista transcendental desse fenômeno que se desvela.
Em algumas filosofias orientais, o conceito de nada é representado por um estado elevado e divino do ser, sem a mesquinhez do ego que tudo centraliza, nada constrói e diminui a grandeza humana.









