Eu não sou depressiva. Há em mim apenas uma espécie de lucidez que às vezes dói. Vejo a vida por dentro e por dentro tudo é mais denso, mais lento, mais verdadeiro. Sou intensa porque não sei ser pela metade. Sou melancólica porque sinto o mundo antes de entendê-lo. Sou artista e isso não é uma escolha, é condição.
Entristeço-me com o que me é estranho: a pressa das metas, a frieza dos números, o esforço de caber nas pessoas. Amo a chuva porque ela não me exige nada. Amo o tempo nublado porque ele combina com a minha luz difusa. Ficar em casa é permanecer em mim. Sair, às vezes, é apenas o corpo lembrando que também existe.
Gosto dos prazeres terrenos. Do toque, do gosto, do silêncio compartilhado. E gosto de falar sobre aquilo que não se toca: espiritualidade, filosofia, essas ligações invisíveis que sustentam o que somos. A arte, sobretudo. A arte é o que impede o ser humano de morrer antes da morte. É o que nos salva do concreto excessivo.
Incomoda-me estar presa a um lugar quando minha alma é movimento. Não cedo meus interesses, eles são a minha forma de respirar.
Sempre busquei um amor que fosse vertigem e morada. Uma paixão que doesse de tão viva. Uma musa que fosse espelho e abismo, a presença central de todas as minhas criações. E encontrei você.
Não sou negativa. Sou atenta. Examino a realidade como quem tateia um quarto escuro. E, ainda assim, tudo em mim acaba sendo poesia. Porque essa é a única maneira que encontrei de existir.








