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A mãe do soldado Fernandes

Esta quem contava era o Dr. Túlio Carvalho Campello de Souza (1920 – 2008), tenente-coronel reformado do Exército, um dos heróis da Força Expedicionária Brasileira. Ferido em combate na Itália durante a 2ª Guerra Mundial, sobreviveu apesar de ter perdido uma das pernas. Retornando a Pindamonhangaba, se empenhou no exercício da advocacia.

Referindo-se à humildade e pobreza da maioria dos seus colegas expedicionários, Túlio Campello citava entre outros exemplos o da mãe do soldado José Fernandes, pracinha da FEB morto em combate na Itália. Chamava-se Percília, era uma preta alta e magra que morava no bairro do Bonsucesso.

Alguns anos após o final da guerra, relembrava o militar reformado, que o 2º Batalhão de Engenharia de Combate havia recebido duas medalhas “Sangue do Brasil”, honraria outorgadas àqueles que haviam sido feridos em campanha ou aos familiares daqueles que tinham morrido lá.

Uma das medalhas era para ser entregue ao senhor José Pires Barbosa, pai do soldado José Pires Barbosa Filho (denomina uma rua no Jardim Rosely – Campo Alegre); a outra era para dona Percília, mãe do soldado José Fernandes (denomina uma rua no bairro do Crispim). Túlio Campello ficou encarregado de entrar em contato com os pais dos pindamonhangabenses mortos em combate na Itália, para informar sobre o dia, horário e local do evento. Com a intenção de facilitar para dona Percília, Túlio havia se oferecido para ir buscá-la em seu automóvel no dia da solenidade, mas ela agradeceu e disse que não precisava.

Chegado o dia da entrega das medalhas, foi num dia 7 de setembro (ano de 1950 ou 1951), dona Percília, que havia recusado o convite do Dr. Túlio Campello para ir buscá-la de automóvel, teria caminhado, descalça, de sua casa até a estação de Bonsucesso (Estrada de Ferro Campos do Jordão). Só ali é que calçou os sapatos e tomou o bonde para a cidade.

O Batalhão estava formado na avenida Jorge Tibiriçá, segundo Túlio, aqueles que seriam agraciados estavam postados no trecho onde atualmente se encontra o prédio da Caixa Econômica Federal.

Feita a leitura do boletim alusivo à condecoração, o comandante do 2º BE Cmb, era o coronel Oyama Clark Leite (no comando de abril/1950 a junho/1951), pregou a medalha “Sangue do Brasil” no peito de José Pires Barbosa, recuou um passo e fez continência. Com a medalha no peito, o pai lembrava-se do filho e chorava.

Prosseguindo a solenidade, o comandante condecorou dona Percília, em cujos trajes modestos destacava-se um pano que trazia cobrindo-lhe a cabeça. Com o mesmo ritual, o militar, ao condecorá-la recuou um passo e fez continência… e a mãe do soldado José Fernandes, morto em combate, “espontaneamente, singelamente, respondeu à continência”.

Contava o velho tenente-coronel, herói da 2ª Guerra, que aquilo poderia parecer engraçado, mas que, pra ele o que mais ficara na lembrança foi “a simplicidade daquela mulher”, a mãe de um soldado impedido de voltar para casa…

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